Wednesday, November 30, 2005

E agora, Zé?

Segundo clichê*

Foi constrangedor. Quando o presidente da Câmara Federal, Aldo Rebelo, anunciou cabisbaixo o resultado da votação que cassou o mandato e os direitos políticos do deputado JoséDirceu, somente meia dúzia de gatos pingados ainda estava no plenário. A grande maioria dos deputados já havia se retirado. Não houve choro nem comemoração. 

Os deputados que votaram pela cassação de Zé Dirceu, em sua maioria, tinham consciência de que estavam condenando alguém pelos crimes que eles próprios sempre cometeram. Tinham de fazer isso, entretanto, para salvar suas próprias peles, dar uma satisfação à opinião pública. Foi um mal necessário. E agora, Zé? E agora, Zé Ninguém? Não se iluda. Nada vai mudar.

Foi constrangedor - como bem ressaltou Luciana Genro em seu discurso - ver Zé Dirceu ser colocado pela Câmara Federal no mesmo balaio que Roberto Jefferson, José Janene, Waldemar Costa Neto e outros que “sempre colocaram os interesses pessoais acima do interesses público”.

“Mas foi ele próprio quem escolheu esse caminho”, lembrou a deputada do P-Sol, ao condenar Zé Dirceu e o PT por terem levado 20 anos para convencer a opinião pública de que eram diferentes dos demais partidos e, agora, ao se defender, alegam exatamente o contrário, ou seja, que são iguais a todos eles.

Zé Dirceu e o PT, na minha imodestíssima opinião, não estão sendo condenados pelo o que são hoje. Mas pelo o que foram ontem.

 

* Para quem não é íntimo da linguagem jornalística, “segundo clichê” é uma segunda edição impressa do jornal devido a um fato relevante ocorrido depois que a primeira edição já saiu às  ruas.

 

Camelôs do centro da cidade

Tenho andado muito pelo centro da cidade desde que passei a trabalhar na rua Barão de Itapetininga, há dois anos. É um caos. Embora esteja bem melhor hoje do que quando cheguei por aqui, a paisagem ainda me remete a cenas de filmes sobre a decadência do Império Romano, com escravos e mendigos jogados ao chão de ruas sujas e fétidas, e com ambulantes de todos os tipos, entre os quais um insuportável vendedor de antenas.

Os camelôs me incomodam. Confesso que é um assunto difícil de tomar posição. Sempre há o argumento de que eles estão desempregados, que têm direito ao trabalho, que coibir sua atuação é uma atitude elitista e excludente. Sempre foi um tema difícil.  O próprio PT, que os acolheu durante a gestão da Erundina, tentou espantá-los, depois, na gestão da Martha. Não conseguiu e duvido que alguém consiga. Eles são mais fortes que o poder público, cujos agentes afastam com pedras e propinas.

Ao caminhar pela ruas Barão de Itapetininga, 24 de Maio, Dom José de Barros, outrora referência de elegância e urbanidade,  observo que, a exemplo do malandro, aquele camelô  de antigamente - personagem de antigos sambas e até certo ponto romântico - não existe mais. Hoje, o que há, são autônomos (sem nenhum direito trabalhista) explorados por redes de contrabandistas, vendendo produtos ilegais, ocupando e sujando irregularmente o espaço público, sem dar nada em troca. 

Não sei, não, se não estou sendo intransigente e mal-influenciado pelo filme “Dogville”, que assisti recentemente. Nele, a personagem interpretada por Nicole Kidman, depois de tentar perdoar as maiores barbaridades que sofreu dos habitantes do tal lugarejo, chega à conclusão de que o mundo seria melhor sem eles. Obviamente, sem desejar o mesmo destino trágico do povo de “Dogville”, acho que o centro da cidade também seria bem melhor sem os camelôs.

Minha culpa cristã, porém, me deixa um pouco dividido.  Eu mesmo, com este blog, talvez seja uma espécie de ambulante virtual, ao montar minha banquinha e oferecer a vocês, caros amigos, estas mal traçadas linhas pela  internet. A única diferença é que não ganho nada com isto - o que me revela um camelô incompetente, ainda por cima.

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Wednesday, November 23, 2005

Jornalistas e prostitutas

Ao fazer uma matéria sobre a seca, o Globo-Repórter da semana passada entrevistou o poeta Thiago de Mello, em Barreirinha, cidade no interior da selva amazônica, onde vive desde que voltou do exílio, por volta de 1980.

Estive lá uns dez anos atrás para fazer uma reportagem com ele, que mora em um bonito conjunto de três casas de madeira projetadas por Lúcio Costa, o arquiteto de Brasília. 

Passei dois agradáveis dias com o poeta que eu conhecia apenas pelo seu memorável poema “Estatutos do Homem” - cujas cópias em “stensil”, na minha adolescência, passavam escondidas de mão em mão tão excitantemente quanto as revistinhas do Carlos Zéfiro.

Um pouco deprimido por causa de uma recente cirurgia de ponte de safena, Thiago de Mello falou um pouco de tudo, mas principalmente de jornalismo. Disse que nós, jornalistas, éramos como prostitutas. Vendíamos nossos textos assim como as prostitutas vendem seus corpos, exclusivamente por dinheiro. Contou que ele próprio, no início dos anos 60, escrevia anonimamente editoriais contra o comunismo em ”O Globo”, enquanto publicava uma coluna assinada no mesmo jornal, na qual dava seguidas estocadas no capitalismo. 

Lembrei-me de uma história que ouvi na época da faculdade sobre um editorialista português do Estadão, chamado Miguel Urbano. Era o melhor dos redatores quando era preciso ”descer o pau” nos comunistas  - como ele próprio, que havia deixado seu país fugindo da ditadura de Salazar, exatamente por ser do PC.

O jornalista Ruy Barboza tem uma crônica deliciosa (que, aliás, ele poderia enviar novamente como colaboração para este blog) que corrobora essa visão dos profissionais da imprensa, contando um caso do jornalista Oswaldo Martins - que é praticamente da mesma época do do Thiago de Mello e do Miguel Urbano.

Não posso discordar dessa visão. Acho até que as prostitutas podem se zangar com a comparação. Eu mesmo já me flagrei diversas vezes rodando a bolsinha por aí, a oferecer a preços módicos este talento que Deus me deu. Uma vez fiz assessoria de imprensa para um candidato a vereador e, na véspera da eleição, cheguei a rezar para que ele não se elegesse.

Uma história que corria antigamente nas redações exemplifica bem este assunto. Um jornal estava fazendo teste para repórter. Os candidatos deveriam redigir 20 linhas sobre Jesus Cristo. Depois terem sido desclassificados vários pretendentes, ganhou imediatamente a vaga um rapaz que, receber a pauta, perguntou ao chefe de reportagem: “É para escrever a favor ou contra?”.

 


Estatutos do Homem

Vale a pena reproduzir aqui o poema de Thiago de Mello, ressalvando que foi escrito na época em que Chê Guevara era vivo e o sonho ainda não havia acabado.

Para lê-lo, clique aqui: Estatutos do Homem

 

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Wednesday, November 16, 2005

Manchetes

A princípio, achei que o tema interessava apenas aos iniciados em jornalismo. Depois, cheguei à conclusão de que pode ser útil também aos leigos, para que entendam um pouco a linha editorial dos diversos órgãos de imprensa. Trata-se de uma colaboração recebida via internet pelo meu amigo Enéas Macedo, o General, sobre manchetes hipotéticas de jornais e revistas anunciando o fim do mundo.

Governo anuncia o fim do mundo, seria a manchete de “O Globo”, confirmando sua vocação governista. O “Jornal do Brasil” trataria o assunto de outro modo. Fim do mundo espalha terror na Zona Sul seria sua manchete, numa clara alusão de que embora seja “do Brasil’, seus editores estão preocupados, mesmo, é com o público de Ipanema.

O “Estado de Minas”, como bom mineiro, desconfiaria: Será que o mundo acaba mesmo? A “Folha de S.Paulo” iria além e, demonstrando a ‘despretensão discreta de suas meninas’, adiantaria: Saiba como será o fim do mundo. Quanto ao “Estadão”, não perderia a oportunidade de uma derradeira estocada: CUT e PT envolvidos no fim do mundo.

Essa manchete creditada ao “Estadão” provavelmente caberia melhor na primeira página de “Veja”. Mas para a revista, o anônimo autor dessa brincadeira reservou algo mais sério: Exclusivo: entrevista com Deus.

A concorrente “Época” permaneceria batendo na tecla de sempre para ver se, finalmente, emplacaria: Até o fim do mundo, sua Época estará custando R$2,80. As femininas não ficariam de fora. A “Nova” traria na capa O melhor do sexo no fim do mundo, enquanto a “Querida” faria um teste com suas jovens leitoras: Saiba se seu namoro vai acabar antes do fim do mundo.

Esses são alguns exemplos que constam do material enviado pelo General. Mas o melhor de todos é o último deles, assinalado como “a manchete que todos nós sonhamos”: Deputado contrai febre aftosa; será preciso sacrificar todo o rebanho!

Manchetes verdadeiras

Todas as manchetes acima são hipotéticas, obviamente. Mas há casos verdadeiros na imprensa tão ou mais divertidos do que esses. Um dos mais famosos é o do extinto “Notícias Populares” no dia seguinte ao compositor Sérgio Ricardo ter atirado seu violão na platéia do festival da canção da TV Record: Violada no auditório, estampou o “NP” no alto de sua primeira página. 

O “Jornal da Tarde” sempre foi famoso por suas manchetes criativas, como a citada aqui neste blog na semana passada, sobre a visita de Reagan ao Brasil, quando trocou o nome dos países que visitava: Reagan não sabe onde está nem para onde vai sintetizava muito bem o perfil do então presidente americano. Mas a melhor manchete do “JT”, na minha opinião, foi a propósito de uma matéria de variedades sobre a proliferação de cozinheiros cearenses nos restaurantes franceses de São Paulo, brilhantemente intitulada de La nouvelle cunzinha.

Entre todas as que eu me lembro, porém, a campeã é a do jornal carioca “O Dia”, que concorria em sensacionalismo com o “Notícias Populares”. Ao relatar o caso de uma moça que acabou na delegacia por tentar morder o pênis de seu noivo, o titulista de “O Dia” caprichou: Ia sendo castrado a dente: ”Se eu não dou um pulinho, nunca mais!”

 

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Wednesday, November 9, 2005

Entrevista com o polígrafo

Gostaria de fazer alguns comentários sem a menor importância sobre os três assuntos da semana: a entrevista do Lula, a visita do Bush e a rebelião dos excluídos na França.

Em primeiro lugar, acho que a crise fez o nosso presidente se tocar que é preciso dar satisfação à opinião pública. Não me conformo com o fato de um presidente da República com a história do Lula chegar ao poder e dar uma banana para a imprensa, como havia feito até agora. Mesmo porque, como ficou claro no Roda Viva, Lula sabe responder (ou se esquivar) muito bem de qualquer pergunta. A agilidade de raciocínio sempre foi seu forte.

Embora apertado por quatro dos seis jornalistas do Roda Viva que efetivamente fizeram perguntas incisivas ( Paulo Markum, Heródoto Barbeiro, Augusto Nunes e Rosely Tardelli), Lula respondeu a todos com o habitual dom da perspicácia que Deus lhe deu. Com os outros dois, Rodolfo Konder e Matinas Susuki, nem foi preciso muito esforço, pois ambos só  “levantaram a bola”para o presidente. Matinas, aliás, estava irreconhecível. Não pelas perguntas que fez (como a do Corinthians) ou deixou de fazer. Apenas pela ausência de seus tradicionais óculos espalhafatosos. 

Tirante essas bobagens, achei curioso, nos intervalos, a TV Cultura ficar fazendo auto-promoção. Lembrei-me do primeiro debate político na televisão após a ditadura, quando o folclórico jornalista Ferreira Netto mediou um encontro entre os candidatos a governador Franco Montoro e Reynaldo de Barros. Depois de apresentar o currículo de ambos, sem a menor cerimônia, Ferreira Netto colocou no ar o seu também.

Ao fim do Roda Viva, Lula prometeu pensar na possibilidade de dar outras entrevistas coletivas, como se estive fazendo um favor. Ora, isso não deveria ser sua prerrogativa. Em uma democracia, o presidente tem por obrigação dar entrevistas para responder às questões da população. Ainda vai chegar o dia em que todo presidente será obrigado a dar entrevistas periódicas e, o que é fundamental, conectado a um polígrafo.

Mr. President

No dia da visita de Bush, uma emissora de televisão, não lembro qual, mostrou imagens de Bill Clinton batendo bola com Pelé na favela da Rocinha. Que diferença entre um e outro. Bush foi recebido com manifestações hostis; Clinton com manifestações de carinho. Sempre me impressionou muito a simpatia natural de Clinton. Mesmo sério, seu semblante mantém um discreto sorriso nos olhos. Clinton quase perdeu seu posto pelo caso com a estagiária Monica Lewinsky • fato que só os cinquentões que já trabalharam com estagiárias são capazes de entender.

Antes de Bush e Clinton, Ronald Reagan passou também rapidamente pelo Brasil. Lembro pouco de sua visita, apenas da gafe em seu discurso de improviso, quando trocou o nome do país onde estava (Brasil ) e do que iria visitar em seguida (Colômbia). Esse lapso levou o Jornal da Tarde a sair com uma das melhores manchetes que já vi: “Reagan não sabe onde está nem para onde vai”.

 

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Wednesday, November 2, 2005

Uma bofetada histórica


Era só o que faltava. Os senadores Arthur Virgílio e Heloisa Helena estão ameaçando dar uma surra no presidente do Brasil porque estão sendo espionados por agentes do governo. Parece mentira, mas isso já aconteceu na política brasileira.
Lá pelo ano de 1957, mais ou menos, por descobrir um “grampo” no telefone de sua residência, um prefeito da cidade de São Paulo foi até o Palácio do Governo e deu a maior bofetada na cara do governador. O prefeito se chamava Vladimir de Toledo Piza; o governador, Jânio Quadros. Quem me contou essa história foi o próprio Vladimir de Toledo Piza, uns vinte anos atrás. Estava fazendo uma matéria sobre a cidade de São Paulo e, entre os entrevistados, constava esse ex-prefeito. Ele me recebeu em um amplo e confortável apartamento, nos Jardins, deu as declarações que eu precisava para cumprir a minha pauta e, depois do tradicional cafezinho, ficamos batendo um papo sobre política. Naquele tempo, era normal tomar café e fumar na casa de qualquer pessoa. Não era necessário sair correndo para fumar na rua. De modo que o papo foi longo e agradável. Vladimir de Toledo Piza contou que fez fortuna comprando quase todas as terras beira-mar entre Ubatuba e Caraguatatuba, no Litoral Norte, na época em que ninguém dava um tostão por elas. “Meus amigos me chamavam de louco”, lembrou. O fato é que o valor desses terrenos se multiplicou e ele que já pertencia a uma família tradicional paulista fez sua própria fortuna. Contou também alguns casos da época em que era prefeito, como quando tentou trazer para São Paulo um metrô de superfície, oferecido pelos japoneses, que custaria muito pouco à cidade. Não conseguiu. Sofreu uma forte oposição à proposta, ignorada, depois, por seus sucessores. “Ninguém quer fazer obras baratas na cidade. Sabe por quê? A comissão é pequena”, desabafou. Mas a história que eu queria ouvir, mesmo, era do tapa em Jânio Quadros , que já ouvira de jornalistas políticos mais antigos. Ele me confirmou com detalhes. Jânio, governador, e ele, prefeito, eram adversários políticos. Um dia, descobriu que seu desafeto havia mandado “grampear” os telefones de sua casa, gravando conversas dele e, o que mais o enfureceu, de sua família. Com seus mais de um metro e noventa de altura, atleta na juventude, foi imediatamente ao Palácio do Governo. Enfurecido e diante de um assustado ajudante-de-ordens, invadiu o gabinete do governador, passou-lhe um sabão e deu-lhe um bem dado tapa na cara.

Ato contínuo, virou as costas e se retirou -  não sem antes derrubar, sem querer, o coronel que fazia segurança de Jânio e que teve o azar de estar do outro lado quando Vladmimir de Toledo Piza deu um solavanco para abrir a porta e ir embora.

Isonomia

Longe de mim fazer campanha pró-tabagismo. Sei dos malefícios do cigarro e confesso que embora fumando menos de seis cigarros por dia, estou sofrendo com a necessidade óbvia de parar. Mas quero ver todos os que votaram “não” no plebiscito do desarmamento defenderem, agora, os plantadores brasileiros de tabaco.

Está começando uma campanha nacional para proibir essse tipo de agricultura. Se somos pacifistas mas por uma questão de princípios defendemos o direito à fabricação de armas, temos de defender também o direito à plantação de tabaco e sua industrialização. Por uma questão de princípios.

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Wednesday, October 19, 2005

Dom Quixote de Itanhaem

 

Um dos e-mails que recebi sobre o referendo de domingo me fez lembrar do vereador Ernesto Zwarg, de Itanhaem, litoral paulista. Não sei se ele ainda está vivo, pois estou naquela fase da vida em que a gente nunca tem certeza se fulano continua neste mundo ou, como dizem os profissionais da saúde, entrou em óbito.

O fato é que o e-mail defendia o “não” com o argumento de que a proibição do comércio de armas impediria o Brasil de continuar exportando armamento para o resto do mundo, como faz atualmente. Essa defesa da exportação de armas me fez lembrar de Ernesto Zwarg e voltar no tempo. 

O ano era o de 1972, e a França estava realizando testes nucleares no Oceano Pacífico. Uma desconhecida entidade ecológica brasileira, da pequena cidade de Itanhaem, enviou um veemente telegrama de protesto ao governo francês. O presidente da entidade era Ernesto Zwarg.

Eu trabalhava na produção de um programa de debates na TV Gazeta de São Paulo, e o tema daquela semana seriam os testes nucleares franceses. Quando li sobre o telegrama de Zwarg, resolvi chamá-lo para o debate.  

Fui até Itanhaem para convidá-lo pessoalmente para o programa. Antes que os mais engraçadinhos se manifestem, quero esclarecer que o Graham Bell já havia inventado o telefone nessa época. Mas não exagero se disser que era mais fácil achar alguém em Itanhaem pessoalmente do que fazendo um interurbano de São Paulo. Conseguir uma linha para telefonar da TV Gazeta já era muita sorte. Fazer um interurbano e localizar alguém em Intanhaem era apenas uma rima  óbvia, não uma solução. Além do mais, o passeio prometia ser agradável.

Encontrar Zwarg foi traquilo. Era conhecido de todos na cidade. Vereador, professor do colégio local, beirava seus 50 anos, já tinha os cabelos grisalhos e morava de frente para o mar. Não conseguia dormir sem o barulho das ondas, justificou.

Foi o primeiro ecologista que conheci na vida. Ele foi ao debate, do qual participaram um físico, um jornalista e um meteorologista - para ser preciso, Narciso Vernizi, o homem do tempo (esse, sim, tenho certeza de que morreu, recentemente). Zwarg foi quem mais impressionou no debate por suas posições pacifistas e conhecimento do tema.

Anos depois, voltei à sua casa para entrevistá-lo sobre a intenção do regime militar de instalar a Usina Angra 3 no litoral sul de São Paulo, projeto contra o qual, obviamente, ele lutou corajosamente (e que por pouco, nosso amigo José Dirceu não consegue ressuscitar; felizmente, caiu antes).   

Ernesto Zwarg tinha uma tese muito interessante. Ele defendia que o Brasil deveria exportar a paz. Afinal, não existia nenhum outro país no mundo em que todas raças conviviam pacificamente como aqui. Por isso, ao receber aquele e-mail a favor do “não”, lembrei-me dessa história. Em vez de armas, exportemos a paz.

Se o Dom Quixote de Itanhaem ainda estiver vivo, seguramente estará fazendo campanha pelo “sim”. Não sei se continuaria com a proposta da exportação da paz, pois muita coisa mudou em nosso País daqueles dias até hoje. De exemplo internacional de convivência pacífica, nos tornamos campeões mundiais de mortes por armas de fogo. E estamos nos matando uns aos outros feito idiotas.

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Tuesday, October 4, 2005

O bispo e o rio

O senhor ao meu lado, numa piscina de um hotel-fazenda no interior de São Paulo, puxa conversa. Beira os 60 anos, é engenheiro do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica) e está trabalhando na transposição do rio São Francisco. Estamos no início do Governo FHC e a obra ainda está em fase de projeto.

Minha curiosidade de repórter em férias não é das mais produtivas. Ainda assim consigo fazer algumas perguntas, ajudado pela naturalidade do engenheiro em revelar todos os segredos de seu trabalho. Umas duas ou três caipirinhas ajudam a conversa a ficar mais solta e verdadeira. Fico surpreso em saber da transposição do São Francisco - notícia até então desconhecida para mim.

O engenheiro do ITA me dá detalhes e confidencia que sua maior dificuldade é  a mudança constante do projeto. A cada semana chega uma nova ordem de Brasília, mandando alterar o futuro trajeto do rio para que passe nas terras deste ou daquele latifundiário, geralmente um político representante do tradicional coronelato nordestino.

As caipirinhas fizeram efeito, fui dormir e nunca mais ouvi falar dessa obra, até dois, três meses atrás, quando li um artigo do jornalista Washington Novaes, no Estadão, sobre o assunto. Para dizer a verdade, até achava que o projeto havia sido engavetado, pois - como comentei aqui outro dia - obra faraônica para mim era coisa da ditadura, da época do milagre brasileiro. 

Washington Novaes informava em seu artigo que das terras por onde vai passar o futuro leito do rio, 60% não são férteis, de nada adiantará irrigá-las. Lembrei, então, da conversa franca daquele engenheiro na beira da piscina. Deu nisso.

Já havia me esquecido disso tudo, quando explode na mídia, esta semana, a notícia da greve de fome do bispo Luiz Flávio Cappio, à beira do rio, na cidade de Cabobrá, Pernambuco - local onde começará o desvio das águas.

Os opositores dessa obra não tinham a mais quem apelar e, seguindo o antigo dito popular, foram reclamar ao bispo. Coincidentemente, um franciscano. Ele comprou a briga e promete dar a sua vida na luta contra “essa obra insana e mentirosa que é a transposição”, segundo declarou. 

Não subi nem desci o São Francisco de gaiola, como fez muita gente da minha geração nos anos 70, quando Sá e Guarabira anunciavam que iria ter barragem no Salto de Sobradinho e o sertão, finalmente, viraria mar.

Só conheço o São Francisco por fotos e pela poesia do nosso cancioneiro popular, e nem tenho detalhes do projeto da transposição. Mas nesse caso estou do lado do bispo. Não a ponto de fazer uma greve de fome e tampouco ir até Cabrobó deitar na frente dos tratores, pois a maior inimiga da minha militância continua sendo aquela velha preguiça, aliás,  mais forte a cada ano que passa.

O máximo que posso colaborar é perpetrar estas mal traçadas linhas e agradecer ao franciscano Luiz Flávio Cappio pela sua vocação ao sacrifíco. Obrigado, padre.

 


 

EM TEMPO: graças à colaboração do Marcelo Melo, indico o artigo desta semana do Ulisses Capozzoli no “Observatório de Imprensa” ( que imperdoavelmente me havia passado despercebido) para quem quiser mergulhar mais profundamente no tema:  “As metáforas de São Francisco, o rio” 

 

 

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Wednesday, September 28, 2005

Nem tudo o que sobe desce

Entro em uma farmácia da rua Barão de Itapetininga, e uma funcionária me pede para assinar um abaixo-assinado reivindicando o fim dos impostos para os remédios. Não assino. Sou contra. Tenho certeza de que se os laboratórios deixarem de pagar impostos, não baixarão o preço final dos medicamentos para o consumidor.

Meus brancos - e parcos - cabelos não são apenas sinal de senilidade. Significam, também, que já vi muita pilhagem nesta vida, como meus avós maternos, embora italianos, no maior patriotismo e boa-fé, entregando suas preciosas alianças para a campanha “doe ouro para o bem do Brasil”. O fato é que a experiência, serve, pelo menos, para que não caiamos sempre no mesmo conto do vigário. O problema é que os vigaristas são criativos. 

O caso do dólar, por exemplo. Há menos de três anos, o dólar chegou a R$ 4,00. Subiu o preço de tudo, como sempre, e também da Vitamina C que tomo diariamente. O vidro com 100 cápsulas passou a custar nada menos do que R$ 70,00. Um absurdo. Mas não dava para argumentar com o dona da farmácia da qual sou freguês, pois com o preço do dólar lá em cima, o preço da vitamina tinha de subir também. Elementar, meu caro Watson. Ocorre que já faz mais de dois anos que o dólar baixou praticamente para a metade, mas o preço da vitamina continua extamente o mesmo.

A mesma coisa ocorreu com os CDs importados. Quando o dólar estava alto, o preço de um CD simples pulou para mais de R$ 60,00. Deveria estar custando, agora, menos de R$ 40,00. Mas não. Continua custando a mesma coisa ou até mais caro.

Lembro ainda dos automóveis. As indústrias automobilísticas fizeram o maior lobby e acabaram conseguindo que o governo tirasse alguns impostos dos chamados carros populares. Nos primeiros meses, até que esses carros ficaram um pouco mais baratos em relação ao que custavam antes. Mas aos poucos, discretamente, os modelos foram recebendo uma maquiagem aqui, outra ali e, bingo, mesmo com os impostos baixos, voltaram ao preço de antes.

Com o combustível é igual. O preço da gasolina sempre acompanha o dólar. Mas só quando a moeda americana sobe. Quando baixa, não acontece nada. Para o consumidor, a variação dos preços é uma passagem só de ida.

Aliás, por falar em petróleo, todas as justificativas para o aumento do combustível, até hoje, também sempre foram um engodo. Quem já está batendo no meio século de existência, há de se lembrar da cantilena de antigamente: pagamos caro a gasolina, pois temos de importar petróleo; quando formos autosuficientes, a gasolina será barata. Pois bem. Vivi para ver. Já somos autosuficientes em petróleo, e nossa gasolina continua uma das mais caras do mundo.

Como vocês podem ver, quando se trata de explorar o pobre consumidor brasileiro, contraria-se até as leis da física, pois esses casos provam que nem tudo que sobe desce.

 

 

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Wednesday, September 21, 2005

Cartão Vermelho

Sou sãopaulino, mas confesso que na adolescência admirava aquele time do Palmeiras que, de tão bom, era chamado de “Academia”. De seus jogadores, lembro-me do nome de dois, aliás, os melhores: Dudu e Ademir da Guia.

Ver Ademir da Guia jogar era um prazer, desde que não fosse contra o São Paulo, obviamente. Seu toque de bola refinado, sua elegância em campo e sua lealdade com os  adversários levaram os cronistas esportivos a apelidarem-no de “divino”.

Quem poderia adivinhar que esse jogador, que não dava pontapé desleal nos adversários, que teve uma carreira marcada pela discrição e seriedade, iria jogar agora no time daqueles políticos que pegam metade do salário de seus funcionários para si?

Seus eleitores - entre os quais não me incluo, é bom que se diga - não sabem votar? Ora, como poderiam saber que ele iria pisar na bola depois de eleito vereador?

De Lord Acton admito que minha cultura de orelha de livro só conhece a tal máxima de que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente. Mas para mim, basta: é a única explicação que tenho para mais esse cartão vermelho do atual jogo político.

 


Como nossos pais

As bandeiras vermelhas voltaram às ruas. Dia desses, da janela de onde trabalho, acompanhei uma manifestação em frente ao Teatro Municipal contra o governo e a corrupção. A Praça Ramos voltou a ficar cheia de bandeiras vermelhas.A maioria dos manifestantes, misturados a uns poucos metalúrgicos e bancários mais velhos, era composta de jovens - meninos e meninas bem parecidos com os pais que há 25 anos participavam do mesmo tipo de manifestação. A maioria vestia calça jeans, tênis e camiseta, como nos velhos tempos. as únicas diferenças, a barriguinha de fora, os piercings e as siglas das bandeiras que, em vez de ser do PT e do  PC do B, sempre as mais ostensivas, agora são do PSTU e do P-Sol. A ilusão continua a mesma.

 

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Thursday, March 24, 2005

A última do bigode

O escritor e psicanalista Roberto Freire internou-se em uma casa de repouso. Ali, praticamente cego, deu para a revista Cult deste mês aquela que, segundo ele próprio, deve ser sua última entrevista. “Bigode”, como é chamado por seus amigos, foi o criador da revolucionária Somaterapia, que, por ser vanguarda demais para nossa conservadora sociedade, foi vítima do preconceito.

A proposta da Somaterapia era muito boa. Unia o que havia de melhor no Yoga (com acento agudo no ó, por favor), em Reich, em Pearls ( Gestalt-terapia), e em outras correntes, cujo objetivo, simplificando, é o de livrar ao máximo o homem de suas neuroses, resgatando sua espontaneidade.

Ao longo de um ano, em reuniões semanais e com dinâmica de grupo, a “Soma” ensinava ao indivíduo como libertar-se da heterorregulação  (submissão do nosso comportamento à opinião dos outros), a viver o “aqui e agora” e, entre outras coisas, a relacionar-se socialmente de forma democrática. E, o mais importante, que “sem tesão (no sentido lato), não há solução”. 

Além de psicológica, a proposta era também ideológica - como toda terapia. No caso da “Soma”, baseada principalmente nas experiências espanholas do início do século passado, divulgava o Anarquismo, e mostrava que tratado seriamente esse sistema político pode, realmente, promover a liberdade e a igualdade entre os homens.

A utopia de Roberto Freire era a de que depois de um ano cada um dos “somaterapeutizados” formasse um novo grupo e assim, sucessivamente, toda a sociedade seria terapeuta de si mesma. Muita gente, porém, preconceituosamente, denegriu a Somaterapia. No próprio meio dos terapeutas ela foi estigmatizada como algo “underground”, coisa de bicho-grilo.

O próprio Roberto, tempos mais tarde, contribuiu para a fixação dessa imagem distorcida, quando tomou uma atitude no minimo excludente: condicionou a participação nos grupos que supervisionava somente a quem praticasse capoeira ( e a de Angola, ainda por cima). Isso provocou uma cisão entre seus discípulos, entre os quais os dois melhores, Décio Melo e João da Matta. Pena, pois foi aí o início do fim da “Soma”.

Menos mal que o “Bigode” esteja deixando muitos livros, nos quais registrou o que é, ou o que deveria ser, a Somaterapia. Assim, quem sabe um dia, quando o preconceito for vencido, ela faça parte da grade dos cursos de Psicologia. Quem sabe um dia, professores e terapeutas do futuro, parafraseando Maiakovski, ressuscitem-na.

A ENTREVISTA 

Quem quiser ler os principais trechos da entrevista de Roberto Freire, inclusive uma concisa e clara explicação sobre o Anarquismo e a Auto-Gestão, clique em

 

http://revistacult.uol.com.br/cult_92_mat1.htm

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