E agora, Zé?
Segundo clichê*
Foi constrangedor. Quando o presidente da Câmara Federal, Aldo Rebelo, anunciou cabisbaixo o resultado da votação que cassou o mandato e os direitos políticos do deputado JoséDirceu, somente meia dúzia de gatos pingados ainda estava no plenário. A grande maioria dos deputados já havia se retirado. Não houve choro nem comemoração.
Os deputados que votaram pela cassação de Zé Dirceu, em sua maioria, tinham consciência de que estavam condenando alguém pelos crimes que eles próprios sempre cometeram. Tinham de fazer isso, entretanto, para salvar suas próprias peles, dar uma satisfação à opinião pública. Foi um mal necessário. E agora, Zé? E agora, Zé Ninguém? Não se iluda. Nada vai mudar.
Foi constrangedor - como bem ressaltou Luciana Genro em seu discurso - ver Zé Dirceu ser colocado pela Câmara Federal no mesmo balaio que Roberto Jefferson, José Janene, Waldemar Costa Neto e outros que “sempre colocaram os interesses pessoais acima do interesses público”.
“Mas foi ele próprio quem escolheu esse caminho”, lembrou a deputada do P-Sol, ao condenar Zé Dirceu e o PT por terem levado 20 anos para convencer a opinião pública de que eram diferentes dos demais partidos e, agora, ao se defender, alegam exatamente o contrário, ou seja, que são iguais a todos eles.
Zé Dirceu e o PT, na minha imodestíssima opinião, não estão sendo condenados pelo o que são hoje. Mas pelo o que foram ontem.
* Para quem não é íntimo da linguagem jornalística, “segundo clichê” é uma segunda edição impressa do jornal devido a um fato relevante ocorrido depois que a primeira edição já saiu às ruas.
Camelôs do centro da cidade
Tenho andado muito pelo centro da cidade desde que passei a trabalhar na rua Barão de Itapetininga, há dois anos. É um caos. Embora esteja bem melhor hoje do que quando cheguei por aqui, a paisagem ainda me remete a cenas de filmes sobre a decadência do Império Romano, com escravos e mendigos jogados ao chão de ruas sujas e fétidas, e com ambulantes de todos os tipos, entre os quais um insuportável vendedor de antenas.
Os camelôs me incomodam. Confesso que é um assunto difícil de tomar posição. Sempre há o argumento de que eles estão desempregados, que têm direito ao trabalho, que coibir sua atuação é uma atitude elitista e excludente. Sempre foi um tema difícil. O próprio PT, que os acolheu durante a gestão da Erundina, tentou espantá-los, depois, na gestão da Martha. Não conseguiu e duvido que alguém consiga. Eles são mais fortes que o poder público, cujos agentes afastam com pedras e propinas.
Ao caminhar pela ruas Barão de Itapetininga, 24 de Maio, Dom José de Barros, outrora referência de elegância e urbanidade, observo que, a exemplo do malandro, aquele camelô de antigamente - personagem de antigos sambas e até certo ponto romântico - não existe mais. Hoje, o que há, são autônomos (sem nenhum direito trabalhista) explorados por redes de contrabandistas, vendendo produtos ilegais, ocupando e sujando irregularmente o espaço público, sem dar nada em troca.
Não sei, não, se não estou sendo intransigente e mal-influenciado pelo filme “Dogville”, que assisti recentemente. Nele, a personagem interpretada por Nicole Kidman, depois de tentar perdoar as maiores barbaridades que sofreu dos habitantes do tal lugarejo, chega à conclusão de que o mundo seria melhor sem eles. Obviamente, sem desejar o mesmo destino trágico do povo de “Dogville”, acho que o centro da cidade também seria bem melhor sem os camelôs.
Minha culpa cristã, porém, me deixa um pouco dividido. Eu mesmo, com este blog, talvez seja uma espécie de ambulante virtual, ao montar minha banquinha e oferecer a vocês, caros amigos, estas mal traçadas linhas pela internet. A única diferença é que não ganho nada com isto - o que me revela um camelô incompetente, ainda por cima.