Os órfãos do Serra
Muita gente lúcida acordou triste hoje porque o candidato do PSDB a presidente da República será Geraldo Alckmim. São os órfãos do Serra. Estão infelizes, em primeiro lugar, porque agora a reeleição de Lula está mais fácil; em segundo, porque Serra, na sua opinião, seria um presidente melhor.
Concordo. O prefeito de São Paulo é mal-humorado, não tem carisma e, contrariado, chega a ser indelicado com seus comandados. Mas tirante suas idiossincrasias, é bem preparado, experiente, tem uma trajetória política de respeito. Entre os tucanos, é um dos poucos que ainda não traíram seu passado. Obstinado, passa a impressão de ter um projeto político para o País (o projeto do Alckmim parece ser apenas pessoal).
Serra só poderia sair candidato, no entanto, se o PSDB criasse um clima, armasse uma grande manifestação, enfim, um “mise-en-scène” para que ele deixasse o Palácio do Anhangabau nos braços dos militantes tucanos, como o salvador da pátria - e não como mais um político mentiroso que jurou em vão ficar na Prefeitura até o final do mandato.
Não foi o que ocorreu. Aliás, nem sei se o PSDB tem militantes. De qualquer forma, não ouvi na barbearia, no táxi, na padaria, na mídia, uma só alma apelar por Serra. Nenhuma faixa, uma pichação, nada. O único apelo nesse sentido foi dele próprio. Teria sido melhor se ficasse calado. Acabou saindo do episódio marcado por uma postura dúbia que pode deixar sequelas.
Desta vez, quando tinha chances reais, não era o candidato do seu partido. Com a experiência política de quem esteve lá, recentemente o ex-ministro José Dirceu declarou que Serra não seria eleito presidente, pois não era o candidato do “establishment”. Acertou.
O PSDB faz parte do “establishment” e seu candidato é Geraldo Alckmim. Conservador, experiente, religioso, neoliberal e privatizador, o governador é um homem do mercado que, se eleito, prosseguirá com a política econômica que vem desde o Governo Fernando Henrique. Portanto, ficamos assim: se tudo mudar, continuará na mesma.
Opus Dei
Meus caros amigos órfãos do Serra. Não se assustem com o fato de Alckmim ser da Opus Dei. Fiz um curso em uma universidade da Espanha, dirigida por essa prelazia, e eles não são os bichos-papões preconizados pelo “Código Da Vinci”. São conservadores, sim, mas inteligentes, estudiosos e muito bem articulados. Dividem-se em numerários e extra-numerários. Os primeiros, celibatários, direcionam toda sua libido à causa; os segundos têm a missão de crescer e multiplicar-se, desde que - como se comentava no campus - no escuro, de camisola e bem rapidinho.