Wednesday, March 29, 2006

Contagem regressiva

Perdoem-me pela falta de imaginação e por insistir neste assunto. Juro que é a última vez, mesmo porque a novela está chegando ao fim. Em poucas horas, finalmente saberemos quem é mais confiável: Martha Suplicy, ao nos avisar que José Serra iria abandonar a Prefeitura nas mãos de Gilberto Kassab; ou o atual prefeito, ao jurar com firma reconhecida que, se eleito, cumpriria o mandato até o fim.

Os jornais garantem que Serra anunciará sua candidatura a governador entre hoje e amanhã.Teremos, então, novamente que optar entre ele e Martha, pois não tenho a menor dúvida de que será ela a candidata do PT. O senador Aloísio Mercadante pode ir colocando o bigode de molho, pois as bases do partido estão “dominadas” pelo grupo da ex-prefeita. 

Meus amigos tucanos a favor da candidatura de Serra me desculpem, mas não vai ser assim tão fácil quanto vocês pensam. 

Não precisa ser nenhum Duda Mendonça para saber que Martha vai exibir à exaustão a gravação de Serra garantindo que não  renunciaria. Além disso, a petista terá os CEUs, a renovação da frota e os corredores de ônibus, o bilhete único e outras realizações bem aceitas pela população para mostrar.

Serra mostrará o quê, se terá cumprido apenas um ano de gestão? Falar somente em ética não fica bem para quem não cumpre a palavra. Alegar que irá tutelar Gilberto Kassab é outra conversa fiada. Não resiste ao primeiro debate - esse filme, aliás, já passou com dois outros protagonistas (Paulo Maluf e Celso Pitta) e o final todo mundo já conhece. 

Acompanhamos duas contagens regressivas: uma, para o lançamento do primeiro astronauta brasileiro; outra, para o lançamento da candidatura de Serra. Desconfio que vão os dois para o espaço.

Ilustração

Este blog tem o privilégio de passar a contar com a colaboração do ilustrador Sérgio Papi (cuja assinatura foi cortada da ilustração acima por este péssimo diagramador eletrônico que vos fala). Papi prometeu comparecer toda semana, mas não me iludo. Assim como no caso dos políticos, não se deve confiar nas promessas dos artistas.

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Wednesday, March 22, 2006

Fica, Zé!

No domingo, estava almoçando num restaurante bem caro, como convidada, e logo depois que entramos saíram o Gilberto Kassab, com um político do norte, qualquer coisa Jorge.  Se o Serra  abandonar a Prefeitura para ser candidato do PSDB ao Governo de São Paulo, como tenho 72 anos, não sou mais obrigada a votar, nunca mais votarei. Um grande abraço, Maria Gilka”.

 
Esse desabafo foi enviado por uma nova leitora que fisguei, a artista plástica Maria Gilka. Retrata a indignação de muitos paulistanos que acreditaram em José Serra quando ele jurou que, se eleito, cumpriria seu mandato até o final. Estou sendo um pouco repetitivo, mas este assunto ainda está na ordem do dia.

Entre os admiradores de Serra, há aqueles que torciam para que ele saísse candidato a presidente, acreditando que o atual prefeito seria o melhor candidato do PSDB. Como comentei aqui na semana passada, são “os órfãos do Serra”. Mas há também aqueles que preferiam ver o prefeito cumprir o mandato até o fim. Quando estes últimos já respiravam aliviados porque ele havia mantido sua palavra, surge a possibilidade da candidatura ao Governo do Estado.

Se fosse para concorrer a presidente, os tucanos ainda teriam uma desculpa: ele seria candidato para ”salvar o País” de um segundo governo petista. Seria uma ‘missão’. Mas para deixar a Prefeitura após um ano de mandato e concorrer ao Governo do Estado não há nenhuma justificativa mais crível, a não ser o oportunismo. É bem provável que o prefeito decida permanecer no cargo. Sua dúvida, entretanto, já foi suficiente para manchar sua imagem.

Zé Serra sempre foi um político sem carisma, é verdade. Mas não podia ser chamado de demagogo, nem de ter posturas dúbias. Sempre passou a imagem de um homem sério, considerado uma exceção no mundo dos políticos profissionais.

A artista plástica Maria Gilka também pode ser considerada uma exceção, pois trata-se de uma mulher que não tem vergonha de revelar a idade. É uma jovem senhora do tempo em que os homens tinham palavra.

Sem coleira

Sei que esta informação não é do interesse de mais do que três ou quatro pessoas, mas só para constar gostaria de informar que depois de onze anos deixei a Assessoria de Imprensa da Secretaria Municipal de Transportes. A partir de agora, trabalharei em projetos pessoais.

Como na fábula de um antigo jornalista, cujo nome não me recordo (pois estou ficando antigo também), durante estes onze anos empregado fui aquele cachorro de raça, frequentador de “petshops”, treinado e bem alimentado pelo seu dono. A partir de agora, passo a ser como um vira-lata, rodando por aí em busca de seu próprio sustento, mas, finalmente, sem coleira.

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Monday, March 13, 2006

Os órfãos do Serra

Muita gente lúcida acordou triste hoje porque o candidato do PSDB a presidente da República será Geraldo Alckmim. São os órfãos do Serra. Estão infelizes, em primeiro lugar, porque agora a reeleição de Lula está mais fácil; em segundo, porque Serra, na sua opinião, seria um presidente melhor. 

Concordo. O prefeito de São Paulo é mal-humorado, não tem carisma e, contrariado, chega a ser indelicado com seus comandados. Mas tirante suas idiossincrasias, é bem preparado, experiente, tem uma trajetória política de respeito. Entre os tucanos, é um dos poucos que ainda não traíram seu passado. Obstinado, passa a impressão de ter um projeto político para o País (o projeto do Alckmim parece ser apenas pessoal). 

Serra só poderia sair candidato, no entanto, se o PSDB criasse um clima, armasse uma grande manifestação, enfim, um “mise-en-scène” para que ele deixasse o Palácio do Anhangabau nos braços dos militantes tucanos, como o salvador da pátria - e não como mais um político mentiroso que jurou em vão ficar na Prefeitura até o final do mandato.

Não foi o que ocorreu. Aliás, nem sei se o PSDB tem militantes. De qualquer forma, não ouvi na barbearia, no táxi, na padaria, na mídia, uma só alma apelar por Serra. Nenhuma faixa, uma pichação, nada. O único apelo nesse sentido foi dele próprio. Teria sido melhor se ficasse calado. Acabou saindo do episódio marcado por uma postura dúbia que pode deixar sequelas. 

Desta vez, quando tinha chances reais, não era o candidato do seu partido. Com a experiência política de quem esteve lá, recentemente o ex-ministro José Dirceu declarou que Serra não seria eleito presidente, pois não era o candidato do “establishment”. Acertou.

O PSDB faz parte do “establishment” e seu candidato é Geraldo Alckmim. Conservador, experiente, religioso, neoliberal e privatizador, o governador é um homem do mercado que, se eleito, prosseguirá com a política econômica que vem desde o Governo Fernando Henrique. Portanto, ficamos assim: se tudo mudar, continuará na mesma. 

Opus Dei

Meus caros amigos órfãos do Serra. Não se assustem com o fato de Alckmim ser da Opus Dei. Fiz um curso em uma universidade da Espanha, dirigida por essa prelazia, e eles não são os bichos-papões preconizados pelo “Código Da Vinci”. São conservadores, sim, mas inteligentes, estudiosos e muito bem articulados. Dividem-se em numerários e extra-numerários. Os primeiros, celibatários, direcionam toda sua libido à causa; os segundos têm a missão de crescer e multiplicar-se, desde que - como se comentava no campus - no escuro, de camisola e bem rapidinho.

 

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Wednesday, March 8, 2006

Sul-Maravilha

O Sul-Maravilha é mais embaixo. Voltei das férias em Santa Catarina impressionado. Nas cidades por onde passei não havia garotos pedindo esmola nos semáforos, nem lixo nas ruas. Chama a atenção o grau de civilidade a que chegou esse Estado, comparado com outras regiões do Brasil. Será que o sulista é melhor do que o nortista?

Obviamente, a resposta é não - apesar de haver ainda quem defenda que o homem do hemisfério norte seja superior ao do hemisfério sul. Mas a verdade é que embora não sejam tão ricas quanto a de São Paulo, por exemplo, as sociedades sulistas são mais organizadas. Por quê?

Por causa do frio. As sociedades de regiões frias são mais organizadas e desenvolvidas economicamente do que as de regiões quentes. Seus habitantes, desde o início aprenderam a se organizar e planejar sua economia. Uma questão de sobrevivência. Morreriam de fome e frio se não construissem uma casa, não estocassem alimentos e não administrassem a energia. A economia planejada sempre fez parte do cotidiano dessas sociedades. Em um país assim fica fácil para qualquer governo implantar um plano de metas para décadas. Todo mundo entende e trabalha nesse sentido. Faz parte da sua cultura. Nem é preciso ter muito estudo.

Nos países tropicais, abençoados por Deus e bonitos por natureza, como o nosso, não há governo que consiga implantar um plano de pelo menos cinco anos. É tudo feito sem planejamento, às pressas. Um governo começa um projeto, vem o sucessor e não o termina, implanta uma nova política, o próximo muda tudo, e assim vamos nós, ao sabor dos ventos.

Pudera! Nossas casas nunca precisaram ser bem estruturadas. Uma cobertura de sapé já era o bastante para nos livrar do sol e da chuva. Nossos rios e florestas sempre nos deram peixe, caça e em nossas terras em se plantando tudo sempre deu o ano inteiro. Estocar energia para quê, se o sol sempre nasceu todos os dias? Enfim, como dizia um antigo slogan das antigas Escolas Urubatã, jamais foi preciso pensar no “futuro de amanhã”.

Por isso, temos tanta dificuldade em entender e implantar as políticas econômicas ditadas pelos países frios do Primeiro Mundo. Do Paraná para cima, nossa cultura é outra. Isso não nos faz piores nem melhores do que os sulistas, mas explica porque, nos últimos anos, muitos amigos e conhecidos se mudaram de São Paulo para Florianópolis: viver em uma cidade onde as pessoas não jogam lixo nas ruas e não há crianças pedindo esmolas, é muito mais agradável. Pelo menos no verão.

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