O Sistema
Sempre desconfiei disso, mas agora, depois da revelação do ex-ministro José Dirceu, tenho certeza: o Sistema ainda existe e continua mandando nos governos, sejam eles quais forem.
Zé Dirceu usou a palavra “establishment” ao fazer essa revelação, noticiada pela Mônica Bérgamo na “Folha” de ontem. Mas o sentido é o mesmo de Sistema (disposição das partes de um todo, coordenadas entre si e que funcionam como estrutura organizada, segundo o Aurélio).
Mas quem integra o Sistema? As multinacionais, os bancos, os grandes empresários nacionais, os latifundiários, os chefes militares e, obviamente, os americanos. A mídia é apenas um de seus tentáculos.
Na época da ditadura, quem escolhia seus títeres era o Sistema. Quando o regime militar chegou ao fim, muitos acreditaram que ele também havia acabado. Ledo engano. Ele nunca deixou de existir. Foi o próprio Sistema que acabou com a ditadura.
Anos antes disso acontecer, o então senador e oposicionista Franco Montoro revelou a um grupo de jornalistas - entre os quais esta testemunha ocular da história que vos fala - ter lido um documento no qual as “Sete Irmãs” (as sete maiores empresas do mundo) já aconselhavam o fim dos regimes de exceção na América Latina. Dito e feito. Em seguida, os países latino-americanos foram se redemocratizando, um a um, sem maiores traumas.
O fato é que o Sistema, com algumas adaptações, continuou dando as cartas. Zé Dirceu está aí para confirmar. Trocando em miúdos, contou que os presidentes do Brasil pouco mandam. São meros delegados do Sistema (“establishment”) que, aliás, acrescentou, não deixará o Serra ser presidente, pois o atual prefeito paulistano é “muito independente”. Zé Dirceu ocupou o principal cargo do governo durante mais de dois anos. Ninguém mais autorizado do que ele a fazer uma revelação dessa importância.
Fica fácil, portanto, entender a renúncia do Jânio, o Golpe de 64, a redemocratização, a ascensão e queda de Collor, FHC ter renegado o que escreveu, e a política econômica do Governo Lula.
Não me iludo. Não se iludam. Nesse processo todo, o povo será sempre coadjuvante.