Wednesday, December 14, 2005

O homem ideal

Ao tomar meu cafezinho ontem à tarde na tal cafeteria da 24 de Maio, lembrei-me de um quadro que vi na parede do quarto de uma amiga minha, muitos anos atrás. Era a pintura de um homem tricotando. Sorri por dentro e pensei com meus botões: no fundo, no fundo, não é esse homem que ela quer para chamar de seu, como diria o tremendão Erasmo Carlos. 

Essa amiga mudou-se para o Nordeste, onde virou doutora, e casou-se com um cara que eu não conheço. Não sei se é um machão, ou se, figurativamente, é claro, tricota nas horas vagas. Só sei que o quadro na parede de seu quarto de estudante me ficou na memória.

Sou daqueles que deram a maior força quando as mulheres queimaram os sutiãs. E não foi somente pelo novo visual, nem pela reconfortante perspectiva de dividir as despesas. Achei que era hora, mesmo, de acabar com o machismo.  

No começo foi um pouco difícil adaptar-me à nova ordem, pois, jovem ainda, nem havia me tornado um machista e já era preciso deixar de sê-lo. Além disso, porque cheguei a ser confidente de uma feminista de carteirinha que estava na maior crise por ter se apaixonado por um machista de primeira linha. Foi aí que entendi a célebre frase de que o coração tem razões que a própria razão desconhece.

O fato é que vivi muito tempo tentando achar o ponto de equilíbrio entre o masculino e o feminino. Somente há alguns anos, encontrei a postura ideal. Hoje, abro a porta do carro para as mulheres, puxo a cadeira no restaurante, e - se possível - divido a conta. Está ótimo. 

Creio que neste início de século 21, chegamos finalmente a um consenso. Não há mulheres tão feministas, nem homens tão machistas. Há alguns homens que até tricotam. Lembrei-me do quadro na parede do quarto da minha amiga, ao ver um deles, ontem (foto), na loja da Lanofix, enquanto tomava meu café.

Grupo tricota em frente à loja da Lanofix, terça-feira à tarde.

 

 

 

Posted by JLT at 02:37:05
Comments

2 Responses to “O homem ideal”

  1. Anonymous says:

    José, um tema que já foi bem polêmico. hoje já incorporou. nao gosto do termo.
    O feminismo acabou com o machismo,mesmo em partes? ser feminista é dividir contas/tarefas?ser feminista é ser morderno?é entender as afliçoes e conflitos masculinos? continuo achando que as mulheres foram prejudicadas e iludidas com o surgimento do movimento (é americano? se for ,só podia ser coisa de americano). as sociedades adoram um rótulo e tratam logo de adotá-los. foi o que aconteceu. hoje as mulheresm têm que encarar o mercado de trabalho, fazer pós-graduaçao,manter o corpo jovem e magro, a mente aberta,ser simpática,alegre,etc,(o a que é absolutamente positivo tdos esses itens), casar,ter 2 filhos, uma casa em ordem,participar de reuniao em colégio de filho,viajar com a familia,etc (o que é absolitamente saudável casar e ter filhos). e p/ o homem o que mudou? tudo! além de ter essa mulher espetacular ao seu lado,muitos ainda dividem as despesas usando como alegaçao os tempos modernos. homem tricotando? ridículo na parede,terrível na vida real (eu lembro dessa foto). abrir portas, puxar a cadeira e pagar a conta num restaurante indicam educaçao por mais que os tempos andem bicudos p/ alguns homens. um beijo

    Escrito por: silvia felli em 2005/12/14 - 20:06
    É isso aí, Silvia Felli, concordo com você em gênero, número e grau. Sua observação está perfeita.

    Escrito por: Ana Paula em 2005/12/15 - 00:52
    José, a esta altura da vida, homem ideal é o que a gente gosta - o que já é muito - e que goste da gente. Por mim, tá de bom tamanho. um beijinho

    Escrito por: thereza em 2005/12/15 - 01:20
    Pois é, enquanto uns estão indo, eu estou mesmo é querendo voltar. Depois de meia vida aprendendo a ser prendada gastei a outra metade até agora desaprendendo, e adivinha? Acho que perdi muito em desaprender, assim como os homens em deixarem de ser cavalheiros, homens, machos e até machista! É, acho que virei machista! Mas aquele mundo que apressadamente nos desfizemos tinha fundamentos que transcendiam muito o "machismo". Acho que jogamos fora a criança junto com a água do banho, sabe? Quem sabe ainda dá tempo pra um resgate? Pelo menos agora faço o tricô e gosto de fazê-lo, então o homem pra chamar de meu pode pagar a conta que não vou bater de frente. Mas se quiser dividir a gente abre espaço… meu equilíbrio vai por aí. Beijão Zé!

    Escrito por: Cris em 2005/12/15 - 01:34
    também me lembro dessa foto, p&b, muito bonita, por sinal.
    o homem que tricotava era belíssimo! são essas as únicas observações que guardo na memória. naquela época éramos jovens e qualquer coisa contrária aos padrões comportamentais eram legais e ponto.
    bj,
    rita

    Escrito por: Anónimo em 2005/12/15 - 11:46
    também me lembro dessa foto, p&b, muito bonita, por sinal.
    o homem que tricotava era belíssimo! são essas as únicas observações que guardo na memória. naquela época éramos jovens e qualquer coisa contrária aos padrões comportamentais eram legais e ponto.
    bj,
    rita

    Escrito por: Anónimo em 2005/12/15 - 11:46
    Pois é Zé. Moro na Bahia, Ssa e proximo daqui a uns cento e trinta quilometros tem ume praia naturalista onde se pratica legalmente o nudismo. Acredito que imediatamente após a excitação dos primeiros minutos nú ali naquêle recanto tão bonito, como tôdas as praias da ””terrinha”” é bom fazer "tricot". Mais exatamente aquêles que tenham a habilidade para dar os nózinhos com as agulhas, arte milenar…
    Luiz Paulo Eduardo.

    Escrito por: Luiz Paulo Eduardo Liguori Lopes em 2005/12/15 - 19:28
    Caro Zé !

    A estória do tricot está ótima. É isso meu caro amigo. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

    Cordiaes saudações.
    JOSÉ PIACSEK NETO

    Escrito por: JOSÉ PIACSEK NETO em 2005/12/15 - 21:12
    Teve tanta bobagem no movimento feminista que até hoje não se sabe se a idéia de mudar a grafia de “HIStory” para “HERstory” era pretensão real ou piada de um gozador de plantão. Fui ao Google ver se havia algum vestígio. E não é que “Herstory” sobrevive, firme e forte? Boa parte como nome de movimentos ou associações lésbicos. Tire você as suas conclusões.

    Esse foi um movimento que com outros – como os da paz e amor e dos homens fazendo tricô – indicavam, na simplificação de alguns esotéricos, a manifestação da força Yin em busca do equilíbrio descompensado pela sociedade patriarcal (Yang). Era o ponto de mutação previsto pelo I Ching.

    Indo por esse raciocínio, ao que tudo indica, essa virada não deu nem para o cheiro. Enquanto as mulheres perdiam tempo imitando os homens (a indústria de cigarros teria quebrado sem elas, só para dar um exemplo), a força Yang voltou com tudo: os votos favoráveis à comercialização de armas deram uma lavada na turma da paz; nos estúdios de “arte” ninguém mais quer saber de exposições, mas sim do software da hora; todo mundo tem pressa; os bandidos dos anos 60 eram anjinhos; e o Diogo Mainarde pode até aproveitar a oportunidade para acuar jornalistas de pensamento mais, digamos, Yin, tendo a certeza de que vai receber como troco, no máximo, uns miados.

    Escrito por: Joerly em 2005/12/15 - 21:37
    Zé, meu sonho de consumo continua o mesmo de três décadas atrás, quando a gente se conheceu: um cara rico e machista, daqueles que batem na mesa e dizem "Mulher minha não trabalha!"

    Escrito por: cida taiar em 2005/12/16 - 10:47

  2. Oz says:

    Tenho andado a “navegar” pelos blogs e quando me deparo com comentários sobre o feminismo fico abismada com o adormecimento de certas mentes. Aconselho vivamente a toda a gente que se interesse por este problema ou não a procurar saber, antes de comentar, o que é o feminismo.
    Primeiro, há quem afirme de facto defender os direitos das mulheres e a reconhecer que o papel da mulher neste sistema social que é patriarcal é sem duvida desvalorizado e reprimido no entanto apressam-se a dizer que não são feministas, ora ao fazerem todas estas afirmações são feministas, o feminismo não é um movimento contra os homens é simplesmente a favor das mulheres, parem de ver as feministas como mulheres que querem eliminar os homens, também as há no entanto à diferentes correntes do feminismo. Eu sou feminista porque defendo as mulheres nesta sociedade que ainda é machista (apesar que haver quem não o queira ver, ou porque não consegue, ou porque não se interessa, ou porque vive numa ilusão). E acrescento que o feminismo pretende não a superioridade das mulheres mas sim a igualdade na diferença.
    E a Europa não é excepção acontecem de facto coisas horríveis e só não as vê quem não quer, como por exemplo no ano passado forma resgatadas duas raparigas que forma raptadas por um homem que as manteve fechada numa cave durante dois anos para poder satisfazer as suas necessidades sexuais, estas raparigas de 14 e 16 anos chegaram mesmo a engravidar deste homem monstruoso, e isto aconteceu algures na nossa Europa dita civilizada, tudo isto porque as mulheres continuam a ser vistas como meros objectos sexuais e domésticos, basta ligar a televisão e ver o machismo que nos é implementado no cérebro e de forma subtil, inconsciente através de anúncios de televisão, filmes, telenovelas e afins.
    Desenganem-se o machismo existe e muitas vezes atinge formas horríveis e isso acontece também nas zonas do planeta ditas civilizadas, e não o feminismo não é um movimento que se deva repudiar, informem-se, por favor.

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