Wednesday, December 21, 2005

O Sistema

Sempre desconfiei disso, mas agora, depois da revelação do ex-ministro José Dirceu, tenho certeza: o Sistema ainda existe e continua mandando nos governos, sejam eles quais forem.

Zé Dirceu usou a palavra “establishment” ao fazer essa revelação, noticiada pela Mônica Bérgamo na “Folha” de ontem. Mas o sentido é o mesmo de Sistema (disposição das partes de um todo, coordenadas entre si e que funcionam como estrutura organizada, segundo o Aurélio).

Mas quem integra o Sistema?  As multinacionais, os bancos, os grandes empresários nacionais, os latifundiários, os chefes militares e, obviamente, os americanos. A mídia é apenas um de seus tentáculos.

Na época da ditadura, quem escolhia seus títeres era o Sistema. Quando o regime militar chegou ao fim, muitos acreditaram que ele também havia acabado. Ledo engano. Ele nunca deixou de existir. Foi o próprio Sistema que acabou com a ditadura.

Anos antes disso acontecer, o então senador e oposicionista Franco Montoro revelou a um grupo de jornalistas - entre os quais esta testemunha ocular da história que vos fala - ter lido um documento no qual as “Sete Irmãs” (as sete maiores empresas do mundo) já aconselhavam o fim dos regimes de exceção na América Latina. Dito e feito. Em seguida, os  países latino-americanos foram se redemocratizando, um a um, sem maiores traumas.

O fato é que o Sistema, com algumas adaptações, continuou dando as cartas. Zé Dirceu está aí para confirmar. Trocando em miúdos, contou que os presidentes do Brasil pouco mandam. São meros delegados do Sistema (“establishment”) que, aliás, acrescentou, não deixará o Serra ser presidente, pois o atual prefeito paulistano é “muito independente”. Zé Dirceu ocupou o principal cargo do governo durante mais de dois anos. Ninguém  mais autorizado do que ele a fazer uma revelação dessa importância.

Fica fácil, portanto, entender a renúncia do Jânio, o Golpe de 64, a redemocratização, a ascensão e queda de Collor, FHC ter renegado o que escreveu, e a política econômica do Governo  Lula.

Não me iludo. Não se iludam. Nesse processo todo, o povo será sempre  coadjuvante.

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Wednesday, December 14, 2005

O homem ideal

Ao tomar meu cafezinho ontem à tarde na tal cafeteria da 24 de Maio, lembrei-me de um quadro que vi na parede do quarto de uma amiga minha, muitos anos atrás. Era a pintura de um homem tricotando. Sorri por dentro e pensei com meus botões: no fundo, no fundo, não é esse homem que ela quer para chamar de seu, como diria o tremendão Erasmo Carlos. 

Essa amiga mudou-se para o Nordeste, onde virou doutora, e casou-se com um cara que eu não conheço. Não sei se é um machão, ou se, figurativamente, é claro, tricota nas horas vagas. Só sei que o quadro na parede de seu quarto de estudante me ficou na memória.

Sou daqueles que deram a maior força quando as mulheres queimaram os sutiãs. E não foi somente pelo novo visual, nem pela reconfortante perspectiva de dividir as despesas. Achei que era hora, mesmo, de acabar com o machismo.  

No começo foi um pouco difícil adaptar-me à nova ordem, pois, jovem ainda, nem havia me tornado um machista e já era preciso deixar de sê-lo. Além disso, porque cheguei a ser confidente de uma feminista de carteirinha que estava na maior crise por ter se apaixonado por um machista de primeira linha. Foi aí que entendi a célebre frase de que o coração tem razões que a própria razão desconhece.

O fato é que vivi muito tempo tentando achar o ponto de equilíbrio entre o masculino e o feminino. Somente há alguns anos, encontrei a postura ideal. Hoje, abro a porta do carro para as mulheres, puxo a cadeira no restaurante, e - se possível - divido a conta. Está ótimo. 

Creio que neste início de século 21, chegamos finalmente a um consenso. Não há mulheres tão feministas, nem homens tão machistas. Há alguns homens que até tricotam. Lembrei-me do quadro na parede do quarto da minha amiga, ao ver um deles, ontem (foto), na loja da Lanofix, enquanto tomava meu café.

Grupo tricota em frente à loja da Lanofix, terça-feira à tarde.

 

 

 

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Wednesday, December 7, 2005

O eletricista japonês

Há inúmeras versões desta estória. Mas a essência é mais ou menos assim: um japonês estava consertando a fiação elétrica de sua casa, em Hiroshima. Ao religar a chave geral, ouviu o estrondo da bomba atômica e, por instantes, achou que havia sido o culpado.

No blog da semana passada, publiquei um comentário sobre os camelôs do centro da cidade, mostrando duas fotos da rua 24 de Maio. No dia seguinte, ao passar por ali, dei de cara com a Guarda Civil Municipal retirando as barraquinhas. Por um minuto tive a mesma sensação do eletricista japonês.

Cafezinho caro

Na mesma 24 de Maio, tomo diariamente um café expresso em um local bem agradável, no mezanino da Galeria Ita, em frente à Galeria do Rock. O café não é lá essas coisas, mas o local é tranquilo, pouco movimentado, ao lado de uma loja de lãs, onde um grupo de velhinhas passa o dia tricotando.

A hora que eu chego para o café, umas três da tarde, a atendente está sempre dormindo, debruçada no balcão. Sem esboçar sequer um sorriso, ela vai até a cafeteira como quem tem uma bola de ferro amarrada às pernas, tira o café, serve, e volta para o balcão. Puxo conversa sobre seu horário de trabalho: das 7h às 18h. Mas ganha hora extra? “Meu patrão não quer nem me registrar”, responde resignada.

É preciso muito exercício de alienação para poder ter prazer em tomar um simples cafezinho neste País.

Santa Ceia

Quem gosta de astrologia e de Leonardo da Vinci não pode perder um artigo do astrólogo e filósofo português Paulo Viana Randow (que, pra ser sincero, não conheço) sobre a Santa Ceia. Ele descreve como, ao pintar esse quadro, o artista italiano representou cada apóstolo com um signo do zodíaco. Para lê-lo, clique aqui.

    

Santa Ceia, famosa ultimamente por causa do ”Código da Vinci”

Pelo sim, pelo não

Já que o blog de hoje enveredou para o campo do misticismo, vale a pena reproduzir aqui ( para quem não leu) uma outra historinha. Esta, a respeito de Albert Einsten, contada pela minha amiga Cida Tayar, ao fazer um comentário sobre o texto “O Deus das pequenas coisas”, do Zé Ruy Gandra.

Dizem que, certo dia, um vizinho viu o velho Albert pendurando uma ferradura sobre o batente da porta de entrada da casa. “O que é isso, professor?”, perguntou o vizinho, intrigado. “Dizem que dá sorte”, respondeu o mestre. “Mas o senhor acredita nisso?”, insistiu o vizinho. E Albert: “Não acredito, mas dizem que funciona, mesmo que a gente não acredite…” 

 

Posted by JLT at 02:49:06 | Permalink | Comments (1) »