Wednesday, November 30, 2005

E agora, Zé?

Segundo clichê*

Foi constrangedor. Quando o presidente da Câmara Federal, Aldo Rebelo, anunciou cabisbaixo o resultado da votação que cassou o mandato e os direitos políticos do deputado JoséDirceu, somente meia dúzia de gatos pingados ainda estava no plenário. A grande maioria dos deputados já havia se retirado. Não houve choro nem comemoração. 

Os deputados que votaram pela cassação de Zé Dirceu, em sua maioria, tinham consciência de que estavam condenando alguém pelos crimes que eles próprios sempre cometeram. Tinham de fazer isso, entretanto, para salvar suas próprias peles, dar uma satisfação à opinião pública. Foi um mal necessário. E agora, Zé? E agora, Zé Ninguém? Não se iluda. Nada vai mudar.

Foi constrangedor - como bem ressaltou Luciana Genro em seu discurso - ver Zé Dirceu ser colocado pela Câmara Federal no mesmo balaio que Roberto Jefferson, José Janene, Waldemar Costa Neto e outros que “sempre colocaram os interesses pessoais acima do interesses público”.

“Mas foi ele próprio quem escolheu esse caminho”, lembrou a deputada do P-Sol, ao condenar Zé Dirceu e o PT por terem levado 20 anos para convencer a opinião pública de que eram diferentes dos demais partidos e, agora, ao se defender, alegam exatamente o contrário, ou seja, que são iguais a todos eles.

Zé Dirceu e o PT, na minha imodestíssima opinião, não estão sendo condenados pelo o que são hoje. Mas pelo o que foram ontem.

 

* Para quem não é íntimo da linguagem jornalística, “segundo clichê” é uma segunda edição impressa do jornal devido a um fato relevante ocorrido depois que a primeira edição já saiu às  ruas.

 

Camelôs do centro da cidade

Tenho andado muito pelo centro da cidade desde que passei a trabalhar na rua Barão de Itapetininga, há dois anos. É um caos. Embora esteja bem melhor hoje do que quando cheguei por aqui, a paisagem ainda me remete a cenas de filmes sobre a decadência do Império Romano, com escravos e mendigos jogados ao chão de ruas sujas e fétidas, e com ambulantes de todos os tipos, entre os quais um insuportável vendedor de antenas.

Os camelôs me incomodam. Confesso que é um assunto difícil de tomar posição. Sempre há o argumento de que eles estão desempregados, que têm direito ao trabalho, que coibir sua atuação é uma atitude elitista e excludente. Sempre foi um tema difícil.  O próprio PT, que os acolheu durante a gestão da Erundina, tentou espantá-los, depois, na gestão da Martha. Não conseguiu e duvido que alguém consiga. Eles são mais fortes que o poder público, cujos agentes afastam com pedras e propinas.

Ao caminhar pela ruas Barão de Itapetininga, 24 de Maio, Dom José de Barros, outrora referência de elegância e urbanidade,  observo que, a exemplo do malandro, aquele camelô  de antigamente - personagem de antigos sambas e até certo ponto romântico - não existe mais. Hoje, o que há, são autônomos (sem nenhum direito trabalhista) explorados por redes de contrabandistas, vendendo produtos ilegais, ocupando e sujando irregularmente o espaço público, sem dar nada em troca. 

Não sei, não, se não estou sendo intransigente e mal-influenciado pelo filme “Dogville”, que assisti recentemente. Nele, a personagem interpretada por Nicole Kidman, depois de tentar perdoar as maiores barbaridades que sofreu dos habitantes do tal lugarejo, chega à conclusão de que o mundo seria melhor sem eles. Obviamente, sem desejar o mesmo destino trágico do povo de “Dogville”, acho que o centro da cidade também seria bem melhor sem os camelôs.

Minha culpa cristã, porém, me deixa um pouco dividido.  Eu mesmo, com este blog, talvez seja uma espécie de ambulante virtual, ao montar minha banquinha e oferecer a vocês, caros amigos, estas mal traçadas linhas pela  internet. A única diferença é que não ganho nada com isto - o que me revela um camelô incompetente, ainda por cima.

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Wednesday, November 23, 2005

Jornalistas e prostitutas

Ao fazer uma matéria sobre a seca, o Globo-Repórter da semana passada entrevistou o poeta Thiago de Mello, em Barreirinha, cidade no interior da selva amazônica, onde vive desde que voltou do exílio, por volta de 1980.

Estive lá uns dez anos atrás para fazer uma reportagem com ele, que mora em um bonito conjunto de três casas de madeira projetadas por Lúcio Costa, o arquiteto de Brasília. 

Passei dois agradáveis dias com o poeta que eu conhecia apenas pelo seu memorável poema “Estatutos do Homem” - cujas cópias em “stensil”, na minha adolescência, passavam escondidas de mão em mão tão excitantemente quanto as revistinhas do Carlos Zéfiro.

Um pouco deprimido por causa de uma recente cirurgia de ponte de safena, Thiago de Mello falou um pouco de tudo, mas principalmente de jornalismo. Disse que nós, jornalistas, éramos como prostitutas. Vendíamos nossos textos assim como as prostitutas vendem seus corpos, exclusivamente por dinheiro. Contou que ele próprio, no início dos anos 60, escrevia anonimamente editoriais contra o comunismo em ”O Globo”, enquanto publicava uma coluna assinada no mesmo jornal, na qual dava seguidas estocadas no capitalismo. 

Lembrei-me de uma história que ouvi na época da faculdade sobre um editorialista português do Estadão, chamado Miguel Urbano. Era o melhor dos redatores quando era preciso ”descer o pau” nos comunistas  - como ele próprio, que havia deixado seu país fugindo da ditadura de Salazar, exatamente por ser do PC.

O jornalista Ruy Barboza tem uma crônica deliciosa (que, aliás, ele poderia enviar novamente como colaboração para este blog) que corrobora essa visão dos profissionais da imprensa, contando um caso do jornalista Oswaldo Martins - que é praticamente da mesma época do do Thiago de Mello e do Miguel Urbano.

Não posso discordar dessa visão. Acho até que as prostitutas podem se zangar com a comparação. Eu mesmo já me flagrei diversas vezes rodando a bolsinha por aí, a oferecer a preços módicos este talento que Deus me deu. Uma vez fiz assessoria de imprensa para um candidato a vereador e, na véspera da eleição, cheguei a rezar para que ele não se elegesse.

Uma história que corria antigamente nas redações exemplifica bem este assunto. Um jornal estava fazendo teste para repórter. Os candidatos deveriam redigir 20 linhas sobre Jesus Cristo. Depois terem sido desclassificados vários pretendentes, ganhou imediatamente a vaga um rapaz que, receber a pauta, perguntou ao chefe de reportagem: “É para escrever a favor ou contra?”.

 


Estatutos do Homem

Vale a pena reproduzir aqui o poema de Thiago de Mello, ressalvando que foi escrito na época em que Chê Guevara era vivo e o sonho ainda não havia acabado.

Para lê-lo, clique aqui: Estatutos do Homem

 

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Wednesday, November 16, 2005

Manchetes

A princípio, achei que o tema interessava apenas aos iniciados em jornalismo. Depois, cheguei à conclusão de que pode ser útil também aos leigos, para que entendam um pouco a linha editorial dos diversos órgãos de imprensa. Trata-se de uma colaboração recebida via internet pelo meu amigo Enéas Macedo, o General, sobre manchetes hipotéticas de jornais e revistas anunciando o fim do mundo.

Governo anuncia o fim do mundo, seria a manchete de “O Globo”, confirmando sua vocação governista. O “Jornal do Brasil” trataria o assunto de outro modo. Fim do mundo espalha terror na Zona Sul seria sua manchete, numa clara alusão de que embora seja “do Brasil’, seus editores estão preocupados, mesmo, é com o público de Ipanema.

O “Estado de Minas”, como bom mineiro, desconfiaria: Será que o mundo acaba mesmo? A “Folha de S.Paulo” iria além e, demonstrando a ‘despretensão discreta de suas meninas’, adiantaria: Saiba como será o fim do mundo. Quanto ao “Estadão”, não perderia a oportunidade de uma derradeira estocada: CUT e PT envolvidos no fim do mundo.

Essa manchete creditada ao “Estadão” provavelmente caberia melhor na primeira página de “Veja”. Mas para a revista, o anônimo autor dessa brincadeira reservou algo mais sério: Exclusivo: entrevista com Deus.

A concorrente “Época” permaneceria batendo na tecla de sempre para ver se, finalmente, emplacaria: Até o fim do mundo, sua Época estará custando R$2,80. As femininas não ficariam de fora. A “Nova” traria na capa O melhor do sexo no fim do mundo, enquanto a “Querida” faria um teste com suas jovens leitoras: Saiba se seu namoro vai acabar antes do fim do mundo.

Esses são alguns exemplos que constam do material enviado pelo General. Mas o melhor de todos é o último deles, assinalado como “a manchete que todos nós sonhamos”: Deputado contrai febre aftosa; será preciso sacrificar todo o rebanho!

Manchetes verdadeiras

Todas as manchetes acima são hipotéticas, obviamente. Mas há casos verdadeiros na imprensa tão ou mais divertidos do que esses. Um dos mais famosos é o do extinto “Notícias Populares” no dia seguinte ao compositor Sérgio Ricardo ter atirado seu violão na platéia do festival da canção da TV Record: Violada no auditório, estampou o “NP” no alto de sua primeira página. 

O “Jornal da Tarde” sempre foi famoso por suas manchetes criativas, como a citada aqui neste blog na semana passada, sobre a visita de Reagan ao Brasil, quando trocou o nome dos países que visitava: Reagan não sabe onde está nem para onde vai sintetizava muito bem o perfil do então presidente americano. Mas a melhor manchete do “JT”, na minha opinião, foi a propósito de uma matéria de variedades sobre a proliferação de cozinheiros cearenses nos restaurantes franceses de São Paulo, brilhantemente intitulada de La nouvelle cunzinha.

Entre todas as que eu me lembro, porém, a campeã é a do jornal carioca “O Dia”, que concorria em sensacionalismo com o “Notícias Populares”. Ao relatar o caso de uma moça que acabou na delegacia por tentar morder o pênis de seu noivo, o titulista de “O Dia” caprichou: Ia sendo castrado a dente: ”Se eu não dou um pulinho, nunca mais!”

 

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Wednesday, November 9, 2005

Entrevista com o polígrafo

Gostaria de fazer alguns comentários sem a menor importância sobre os três assuntos da semana: a entrevista do Lula, a visita do Bush e a rebelião dos excluídos na França.

Em primeiro lugar, acho que a crise fez o nosso presidente se tocar que é preciso dar satisfação à opinião pública. Não me conformo com o fato de um presidente da República com a história do Lula chegar ao poder e dar uma banana para a imprensa, como havia feito até agora. Mesmo porque, como ficou claro no Roda Viva, Lula sabe responder (ou se esquivar) muito bem de qualquer pergunta. A agilidade de raciocínio sempre foi seu forte.

Embora apertado por quatro dos seis jornalistas do Roda Viva que efetivamente fizeram perguntas incisivas ( Paulo Markum, Heródoto Barbeiro, Augusto Nunes e Rosely Tardelli), Lula respondeu a todos com o habitual dom da perspicácia que Deus lhe deu. Com os outros dois, Rodolfo Konder e Matinas Susuki, nem foi preciso muito esforço, pois ambos só  “levantaram a bola”para o presidente. Matinas, aliás, estava irreconhecível. Não pelas perguntas que fez (como a do Corinthians) ou deixou de fazer. Apenas pela ausência de seus tradicionais óculos espalhafatosos. 

Tirante essas bobagens, achei curioso, nos intervalos, a TV Cultura ficar fazendo auto-promoção. Lembrei-me do primeiro debate político na televisão após a ditadura, quando o folclórico jornalista Ferreira Netto mediou um encontro entre os candidatos a governador Franco Montoro e Reynaldo de Barros. Depois de apresentar o currículo de ambos, sem a menor cerimônia, Ferreira Netto colocou no ar o seu também.

Ao fim do Roda Viva, Lula prometeu pensar na possibilidade de dar outras entrevistas coletivas, como se estive fazendo um favor. Ora, isso não deveria ser sua prerrogativa. Em uma democracia, o presidente tem por obrigação dar entrevistas para responder às questões da população. Ainda vai chegar o dia em que todo presidente será obrigado a dar entrevistas periódicas e, o que é fundamental, conectado a um polígrafo.

Mr. President

No dia da visita de Bush, uma emissora de televisão, não lembro qual, mostrou imagens de Bill Clinton batendo bola com Pelé na favela da Rocinha. Que diferença entre um e outro. Bush foi recebido com manifestações hostis; Clinton com manifestações de carinho. Sempre me impressionou muito a simpatia natural de Clinton. Mesmo sério, seu semblante mantém um discreto sorriso nos olhos. Clinton quase perdeu seu posto pelo caso com a estagiária Monica Lewinsky • fato que só os cinquentões que já trabalharam com estagiárias são capazes de entender.

Antes de Bush e Clinton, Ronald Reagan passou também rapidamente pelo Brasil. Lembro pouco de sua visita, apenas da gafe em seu discurso de improviso, quando trocou o nome do país onde estava (Brasil ) e do que iria visitar em seguida (Colômbia). Esse lapso levou o Jornal da Tarde a sair com uma das melhores manchetes que já vi: “Reagan não sabe onde está nem para onde vai”.

 

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Wednesday, November 2, 2005

Uma bofetada histórica


Era só o que faltava. Os senadores Arthur Virgílio e Heloisa Helena estão ameaçando dar uma surra no presidente do Brasil porque estão sendo espionados por agentes do governo. Parece mentira, mas isso já aconteceu na política brasileira.
Lá pelo ano de 1957, mais ou menos, por descobrir um “grampo” no telefone de sua residência, um prefeito da cidade de São Paulo foi até o Palácio do Governo e deu a maior bofetada na cara do governador. O prefeito se chamava Vladimir de Toledo Piza; o governador, Jânio Quadros. Quem me contou essa história foi o próprio Vladimir de Toledo Piza, uns vinte anos atrás. Estava fazendo uma matéria sobre a cidade de São Paulo e, entre os entrevistados, constava esse ex-prefeito. Ele me recebeu em um amplo e confortável apartamento, nos Jardins, deu as declarações que eu precisava para cumprir a minha pauta e, depois do tradicional cafezinho, ficamos batendo um papo sobre política. Naquele tempo, era normal tomar café e fumar na casa de qualquer pessoa. Não era necessário sair correndo para fumar na rua. De modo que o papo foi longo e agradável. Vladimir de Toledo Piza contou que fez fortuna comprando quase todas as terras beira-mar entre Ubatuba e Caraguatatuba, no Litoral Norte, na época em que ninguém dava um tostão por elas. “Meus amigos me chamavam de louco”, lembrou. O fato é que o valor desses terrenos se multiplicou e ele que já pertencia a uma família tradicional paulista fez sua própria fortuna. Contou também alguns casos da época em que era prefeito, como quando tentou trazer para São Paulo um metrô de superfície, oferecido pelos japoneses, que custaria muito pouco à cidade. Não conseguiu. Sofreu uma forte oposição à proposta, ignorada, depois, por seus sucessores. “Ninguém quer fazer obras baratas na cidade. Sabe por quê? A comissão é pequena”, desabafou. Mas a história que eu queria ouvir, mesmo, era do tapa em Jânio Quadros , que já ouvira de jornalistas políticos mais antigos. Ele me confirmou com detalhes. Jânio, governador, e ele, prefeito, eram adversários políticos. Um dia, descobriu que seu desafeto havia mandado “grampear” os telefones de sua casa, gravando conversas dele e, o que mais o enfureceu, de sua família. Com seus mais de um metro e noventa de altura, atleta na juventude, foi imediatamente ao Palácio do Governo. Enfurecido e diante de um assustado ajudante-de-ordens, invadiu o gabinete do governador, passou-lhe um sabão e deu-lhe um bem dado tapa na cara.

Ato contínuo, virou as costas e se retirou -  não sem antes derrubar, sem querer, o coronel que fazia segurança de Jânio e que teve o azar de estar do outro lado quando Vladmimir de Toledo Piza deu um solavanco para abrir a porta e ir embora.

Isonomia

Longe de mim fazer campanha pró-tabagismo. Sei dos malefícios do cigarro e confesso que embora fumando menos de seis cigarros por dia, estou sofrendo com a necessidade óbvia de parar. Mas quero ver todos os que votaram “não” no plebiscito do desarmamento defenderem, agora, os plantadores brasileiros de tabaco.

Está começando uma campanha nacional para proibir essse tipo de agricultura. Se somos pacifistas mas por uma questão de princípios defendemos o direito à fabricação de armas, temos de defender também o direito à plantação de tabaco e sua industrialização. Por uma questão de princípios.

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