Wednesday, October 19, 2005

Dom Quixote de Itanhaem

 

Um dos e-mails que recebi sobre o referendo de domingo me fez lembrar do vereador Ernesto Zwarg, de Itanhaem, litoral paulista. Não sei se ele ainda está vivo, pois estou naquela fase da vida em que a gente nunca tem certeza se fulano continua neste mundo ou, como dizem os profissionais da saúde, entrou em óbito.

O fato é que o e-mail defendia o “não” com o argumento de que a proibição do comércio de armas impediria o Brasil de continuar exportando armamento para o resto do mundo, como faz atualmente. Essa defesa da exportação de armas me fez lembrar de Ernesto Zwarg e voltar no tempo. 

O ano era o de 1972, e a França estava realizando testes nucleares no Oceano Pacífico. Uma desconhecida entidade ecológica brasileira, da pequena cidade de Itanhaem, enviou um veemente telegrama de protesto ao governo francês. O presidente da entidade era Ernesto Zwarg.

Eu trabalhava na produção de um programa de debates na TV Gazeta de São Paulo, e o tema daquela semana seriam os testes nucleares franceses. Quando li sobre o telegrama de Zwarg, resolvi chamá-lo para o debate.  

Fui até Itanhaem para convidá-lo pessoalmente para o programa. Antes que os mais engraçadinhos se manifestem, quero esclarecer que o Graham Bell já havia inventado o telefone nessa época. Mas não exagero se disser que era mais fácil achar alguém em Itanhaem pessoalmente do que fazendo um interurbano de São Paulo. Conseguir uma linha para telefonar da TV Gazeta já era muita sorte. Fazer um interurbano e localizar alguém em Intanhaem era apenas uma rima  óbvia, não uma solução. Além do mais, o passeio prometia ser agradável.

Encontrar Zwarg foi traquilo. Era conhecido de todos na cidade. Vereador, professor do colégio local, beirava seus 50 anos, já tinha os cabelos grisalhos e morava de frente para o mar. Não conseguia dormir sem o barulho das ondas, justificou.

Foi o primeiro ecologista que conheci na vida. Ele foi ao debate, do qual participaram um físico, um jornalista e um meteorologista - para ser preciso, Narciso Vernizi, o homem do tempo (esse, sim, tenho certeza de que morreu, recentemente). Zwarg foi quem mais impressionou no debate por suas posições pacifistas e conhecimento do tema.

Anos depois, voltei à sua casa para entrevistá-lo sobre a intenção do regime militar de instalar a Usina Angra 3 no litoral sul de São Paulo, projeto contra o qual, obviamente, ele lutou corajosamente (e que por pouco, nosso amigo José Dirceu não consegue ressuscitar; felizmente, caiu antes).   

Ernesto Zwarg tinha uma tese muito interessante. Ele defendia que o Brasil deveria exportar a paz. Afinal, não existia nenhum outro país no mundo em que todas raças conviviam pacificamente como aqui. Por isso, ao receber aquele e-mail a favor do “não”, lembrei-me dessa história. Em vez de armas, exportemos a paz.

Se o Dom Quixote de Itanhaem ainda estiver vivo, seguramente estará fazendo campanha pelo “sim”. Não sei se continuaria com a proposta da exportação da paz, pois muita coisa mudou em nosso País daqueles dias até hoje. De exemplo internacional de convivência pacífica, nos tornamos campeões mundiais de mortes por armas de fogo. E estamos nos matando uns aos outros feito idiotas.

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Tuesday, October 4, 2005

O bispo e o rio

O senhor ao meu lado, numa piscina de um hotel-fazenda no interior de São Paulo, puxa conversa. Beira os 60 anos, é engenheiro do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica) e está trabalhando na transposição do rio São Francisco. Estamos no início do Governo FHC e a obra ainda está em fase de projeto.

Minha curiosidade de repórter em férias não é das mais produtivas. Ainda assim consigo fazer algumas perguntas, ajudado pela naturalidade do engenheiro em revelar todos os segredos de seu trabalho. Umas duas ou três caipirinhas ajudam a conversa a ficar mais solta e verdadeira. Fico surpreso em saber da transposição do São Francisco - notícia até então desconhecida para mim.

O engenheiro do ITA me dá detalhes e confidencia que sua maior dificuldade é  a mudança constante do projeto. A cada semana chega uma nova ordem de Brasília, mandando alterar o futuro trajeto do rio para que passe nas terras deste ou daquele latifundiário, geralmente um político representante do tradicional coronelato nordestino.

As caipirinhas fizeram efeito, fui dormir e nunca mais ouvi falar dessa obra, até dois, três meses atrás, quando li um artigo do jornalista Washington Novaes, no Estadão, sobre o assunto. Para dizer a verdade, até achava que o projeto havia sido engavetado, pois - como comentei aqui outro dia - obra faraônica para mim era coisa da ditadura, da época do milagre brasileiro. 

Washington Novaes informava em seu artigo que das terras por onde vai passar o futuro leito do rio, 60% não são férteis, de nada adiantará irrigá-las. Lembrei, então, da conversa franca daquele engenheiro na beira da piscina. Deu nisso.

Já havia me esquecido disso tudo, quando explode na mídia, esta semana, a notícia da greve de fome do bispo Luiz Flávio Cappio, à beira do rio, na cidade de Cabobrá, Pernambuco - local onde começará o desvio das águas.

Os opositores dessa obra não tinham a mais quem apelar e, seguindo o antigo dito popular, foram reclamar ao bispo. Coincidentemente, um franciscano. Ele comprou a briga e promete dar a sua vida na luta contra “essa obra insana e mentirosa que é a transposição”, segundo declarou. 

Não subi nem desci o São Francisco de gaiola, como fez muita gente da minha geração nos anos 70, quando Sá e Guarabira anunciavam que iria ter barragem no Salto de Sobradinho e o sertão, finalmente, viraria mar.

Só conheço o São Francisco por fotos e pela poesia do nosso cancioneiro popular, e nem tenho detalhes do projeto da transposição. Mas nesse caso estou do lado do bispo. Não a ponto de fazer uma greve de fome e tampouco ir até Cabrobó deitar na frente dos tratores, pois a maior inimiga da minha militância continua sendo aquela velha preguiça, aliás,  mais forte a cada ano que passa.

O máximo que posso colaborar é perpetrar estas mal traçadas linhas e agradecer ao franciscano Luiz Flávio Cappio pela sua vocação ao sacrifíco. Obrigado, padre.

 


 

EM TEMPO: graças à colaboração do Marcelo Melo, indico o artigo desta semana do Ulisses Capozzoli no “Observatório de Imprensa” ( que imperdoavelmente me havia passado despercebido) para quem quiser mergulhar mais profundamente no tema:  “As metáforas de São Francisco, o rio” 

 

 

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