Dom Quixote de Itanhaem
Um dos e-mails que recebi sobre o referendo de domingo me fez lembrar do vereador Ernesto Zwarg, de Itanhaem, litoral paulista. Não sei se ele ainda está vivo, pois estou naquela fase da vida em que a gente nunca tem certeza se fulano continua neste mundo ou, como dizem os profissionais da saúde, entrou em óbito.
O fato é que o e-mail defendia o “não” com o argumento de que a proibição do comércio de armas impediria o Brasil de continuar exportando armamento para o resto do mundo, como faz atualmente. Essa defesa da exportação de armas me fez lembrar de Ernesto Zwarg e voltar no tempo.
O ano era o de 1972, e a França estava realizando testes nucleares no Oceano Pacífico. Uma desconhecida entidade ecológica brasileira, da pequena cidade de Itanhaem, enviou um veemente telegrama de protesto ao governo francês. O presidente da entidade era Ernesto Zwarg.
Eu trabalhava na produção de um programa de debates na TV Gazeta de São Paulo, e o tema daquela semana seriam os testes nucleares franceses. Quando li sobre o telegrama de Zwarg, resolvi chamá-lo para o debate.
Fui até Itanhaem para convidá-lo pessoalmente para o programa. Antes que os mais engraçadinhos se manifestem, quero esclarecer que o Graham Bell já havia inventado o telefone nessa época. Mas não exagero se disser que era mais fácil achar alguém em Itanhaem pessoalmente do que fazendo um interurbano de São Paulo. Conseguir uma linha para telefonar da TV Gazeta já era muita sorte. Fazer um interurbano e localizar alguém em Intanhaem era apenas uma rima óbvia, não uma solução. Além do mais, o passeio prometia ser agradável.
Encontrar Zwarg foi traquilo. Era conhecido de todos na cidade. Vereador, professor do colégio local, beirava seus 50 anos, já tinha os cabelos grisalhos e morava de frente para o mar. Não conseguia dormir sem o barulho das ondas, justificou.
Foi o primeiro ecologista que conheci na vida. Ele foi ao debate, do qual participaram um físico, um jornalista e um meteorologista - para ser preciso, Narciso Vernizi, o homem do tempo (esse, sim, tenho certeza de que morreu, recentemente). Zwarg foi quem mais impressionou no debate por suas posições pacifistas e conhecimento do tema.
Anos depois, voltei à sua casa para entrevistá-lo sobre a intenção do regime militar de instalar a Usina Angra 3 no litoral sul de São Paulo, projeto contra o qual, obviamente, ele lutou corajosamente (e que por pouco, nosso amigo José Dirceu não consegue ressuscitar; felizmente, caiu antes).
Ernesto Zwarg tinha uma tese muito interessante. Ele defendia que o Brasil deveria exportar a paz. Afinal, não existia nenhum outro país no mundo em que todas raças conviviam pacificamente como aqui. Por isso, ao receber aquele e-mail a favor do “não”, lembrei-me dessa história. Em vez de armas, exportemos a paz.
Se o Dom Quixote de Itanhaem ainda estiver vivo, seguramente estará fazendo campanha pelo “sim”. Não sei se continuaria com a proposta da exportação da paz, pois muita coisa mudou em nosso País daqueles dias até hoje. De exemplo internacional de convivência pacífica, nos tornamos campeões mundiais de mortes por armas de fogo. E estamos nos matando uns aos outros feito idiotas.