Cartão Vermelho
Sou sãopaulino, mas confesso que na adolescência admirava aquele time do Palmeiras que, de tão bom, era chamado de “Academia”. De seus jogadores, lembro-me do nome de dois, aliás, os melhores: Dudu e Ademir da Guia.
Ver Ademir da Guia jogar era um prazer, desde que não fosse contra o São Paulo, obviamente. Seu toque de bola refinado, sua elegância em campo e sua lealdade com os adversários levaram os cronistas esportivos a apelidarem-no de “divino”.
Quem poderia adivinhar que esse jogador, que não dava pontapé desleal nos adversários, que teve uma carreira marcada pela discrição e seriedade, iria jogar agora no time daqueles políticos que pegam metade do salário de seus funcionários para si?
Seus eleitores - entre os quais não me incluo, é bom que se diga - não sabem votar? Ora, como poderiam saber que ele iria pisar na bola depois de eleito vereador?
De Lord Acton admito que minha cultura de orelha de livro só conhece a tal máxima de que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente. Mas para mim, basta: é a única explicação que tenho para mais esse cartão vermelho do atual jogo político.
Como nossos pais
As bandeiras vermelhas voltaram às ruas. Dia desses, da janela de onde trabalho, acompanhei uma manifestação em frente ao Teatro Municipal contra o governo e a corrupção. A Praça Ramos voltou a ficar cheia de bandeiras vermelhas.A maioria dos manifestantes, misturados a uns poucos metalúrgicos e bancários mais velhos, era composta de jovens - meninos e meninas bem parecidos com os pais que há 25 anos participavam do mesmo tipo de manifestação. A maioria vestia calça jeans, tênis e camiseta, como nos velhos tempos. as únicas diferenças, a barriguinha de fora, os piercings e as siglas das bandeiras que, em vez de ser do PT e do PC do B, sempre as mais ostensivas, agora são do PSTU e do P-Sol. A ilusão continua a mesma.