Wednesday, September 28, 2005

Nem tudo o que sobe desce

Entro em uma farmácia da rua Barão de Itapetininga, e uma funcionária me pede para assinar um abaixo-assinado reivindicando o fim dos impostos para os remédios. Não assino. Sou contra. Tenho certeza de que se os laboratórios deixarem de pagar impostos, não baixarão o preço final dos medicamentos para o consumidor.

Meus brancos - e parcos - cabelos não são apenas sinal de senilidade. Significam, também, que já vi muita pilhagem nesta vida, como meus avós maternos, embora italianos, no maior patriotismo e boa-fé, entregando suas preciosas alianças para a campanha “doe ouro para o bem do Brasil”. O fato é que a experiência, serve, pelo menos, para que não caiamos sempre no mesmo conto do vigário. O problema é que os vigaristas são criativos. 

O caso do dólar, por exemplo. Há menos de três anos, o dólar chegou a R$ 4,00. Subiu o preço de tudo, como sempre, e também da Vitamina C que tomo diariamente. O vidro com 100 cápsulas passou a custar nada menos do que R$ 70,00. Um absurdo. Mas não dava para argumentar com o dona da farmácia da qual sou freguês, pois com o preço do dólar lá em cima, o preço da vitamina tinha de subir também. Elementar, meu caro Watson. Ocorre que já faz mais de dois anos que o dólar baixou praticamente para a metade, mas o preço da vitamina continua extamente o mesmo.

A mesma coisa ocorreu com os CDs importados. Quando o dólar estava alto, o preço de um CD simples pulou para mais de R$ 60,00. Deveria estar custando, agora, menos de R$ 40,00. Mas não. Continua custando a mesma coisa ou até mais caro.

Lembro ainda dos automóveis. As indústrias automobilísticas fizeram o maior lobby e acabaram conseguindo que o governo tirasse alguns impostos dos chamados carros populares. Nos primeiros meses, até que esses carros ficaram um pouco mais baratos em relação ao que custavam antes. Mas aos poucos, discretamente, os modelos foram recebendo uma maquiagem aqui, outra ali e, bingo, mesmo com os impostos baixos, voltaram ao preço de antes.

Com o combustível é igual. O preço da gasolina sempre acompanha o dólar. Mas só quando a moeda americana sobe. Quando baixa, não acontece nada. Para o consumidor, a variação dos preços é uma passagem só de ida.

Aliás, por falar em petróleo, todas as justificativas para o aumento do combustível, até hoje, também sempre foram um engodo. Quem já está batendo no meio século de existência, há de se lembrar da cantilena de antigamente: pagamos caro a gasolina, pois temos de importar petróleo; quando formos autosuficientes, a gasolina será barata. Pois bem. Vivi para ver. Já somos autosuficientes em petróleo, e nossa gasolina continua uma das mais caras do mundo.

Como vocês podem ver, quando se trata de explorar o pobre consumidor brasileiro, contraria-se até as leis da física, pois esses casos provam que nem tudo que sobe desce.

 

 

Posted by JLT at 23:21:31 | Permalink | No Comments »

Wednesday, September 21, 2005

Cartão Vermelho

Sou sãopaulino, mas confesso que na adolescência admirava aquele time do Palmeiras que, de tão bom, era chamado de “Academia”. De seus jogadores, lembro-me do nome de dois, aliás, os melhores: Dudu e Ademir da Guia.

Ver Ademir da Guia jogar era um prazer, desde que não fosse contra o São Paulo, obviamente. Seu toque de bola refinado, sua elegância em campo e sua lealdade com os  adversários levaram os cronistas esportivos a apelidarem-no de “divino”.

Quem poderia adivinhar que esse jogador, que não dava pontapé desleal nos adversários, que teve uma carreira marcada pela discrição e seriedade, iria jogar agora no time daqueles políticos que pegam metade do salário de seus funcionários para si?

Seus eleitores - entre os quais não me incluo, é bom que se diga - não sabem votar? Ora, como poderiam saber que ele iria pisar na bola depois de eleito vereador?

De Lord Acton admito que minha cultura de orelha de livro só conhece a tal máxima de que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente. Mas para mim, basta: é a única explicação que tenho para mais esse cartão vermelho do atual jogo político.

 


Como nossos pais

As bandeiras vermelhas voltaram às ruas. Dia desses, da janela de onde trabalho, acompanhei uma manifestação em frente ao Teatro Municipal contra o governo e a corrupção. A Praça Ramos voltou a ficar cheia de bandeiras vermelhas.A maioria dos manifestantes, misturados a uns poucos metalúrgicos e bancários mais velhos, era composta de jovens - meninos e meninas bem parecidos com os pais que há 25 anos participavam do mesmo tipo de manifestação. A maioria vestia calça jeans, tênis e camiseta, como nos velhos tempos. as únicas diferenças, a barriguinha de fora, os piercings e as siglas das bandeiras que, em vez de ser do PT e do  PC do B, sempre as mais ostensivas, agora são do PSTU e do P-Sol. A ilusão continua a mesma.

 

Posted by JLT at 23:34:24 | Permalink | No Comments »