Nem tudo o que sobe desce
Entro em uma farmácia da rua Barão de Itapetininga, e uma funcionária me pede para assinar um abaixo-assinado reivindicando o fim dos impostos para os remédios. Não assino. Sou contra. Tenho certeza de que se os laboratórios deixarem de pagar impostos, não baixarão o preço final dos medicamentos para o consumidor.
Meus brancos - e parcos - cabelos não são apenas sinal de senilidade. Significam, também, que já vi muita pilhagem nesta vida, como meus avós maternos, embora italianos, no maior patriotismo e boa-fé, entregando suas preciosas alianças para a campanha “doe ouro para o bem do Brasil”. O fato é que a experiência, serve, pelo menos, para que não caiamos sempre no mesmo conto do vigário. O problema é que os vigaristas são criativos.
O caso do dólar, por exemplo. Há menos de três anos, o dólar chegou a R$ 4,00. Subiu o preço de tudo, como sempre, e também da Vitamina C que tomo diariamente. O vidro com 100 cápsulas passou a custar nada menos do que R$ 70,00. Um absurdo. Mas não dava para argumentar com o dona da farmácia da qual sou freguês, pois com o preço do dólar lá em cima, o preço da vitamina tinha de subir também. Elementar, meu caro Watson. Ocorre que já faz mais de dois anos que o dólar baixou praticamente para a metade, mas o preço da vitamina continua extamente o mesmo.
A mesma coisa ocorreu com os CDs importados. Quando o dólar estava alto, o preço de um CD simples pulou para mais de R$ 60,00. Deveria estar custando, agora, menos de R$ 40,00. Mas não. Continua custando a mesma coisa ou até mais caro.
Lembro ainda dos automóveis. As indústrias automobilísticas fizeram o maior lobby e acabaram conseguindo que o governo tirasse alguns impostos dos chamados carros populares. Nos primeiros meses, até que esses carros ficaram um pouco mais baratos em relação ao que custavam antes. Mas aos poucos, discretamente, os modelos foram recebendo uma maquiagem aqui, outra ali e, bingo, mesmo com os impostos baixos, voltaram ao preço de antes.
Com o combustível é igual. O preço da gasolina sempre acompanha o dólar. Mas só quando a moeda americana sobe. Quando baixa, não acontece nada. Para o consumidor, a variação dos preços é uma passagem só de ida.
Aliás, por falar em petróleo, todas as justificativas para o aumento do combustível, até hoje, também sempre foram um engodo. Quem já está batendo no meio século de existência, há de se lembrar da cantilena de antigamente: pagamos caro a gasolina, pois temos de importar petróleo; quando formos autosuficientes, a gasolina será barata. Pois bem. Vivi para ver. Já somos autosuficientes em petróleo, e nossa gasolina continua uma das mais caras do mundo.
Como vocês podem ver, quando se trata de explorar o pobre consumidor brasileiro, contraria-se até as leis da física, pois esses casos provam que nem tudo que sobe desce.