A última do bigode
O escritor e psicanalista Roberto Freire internou-se em uma casa de repouso. Ali, praticamente cego, deu para a revista Cult deste mês aquela que, segundo ele próprio, deve ser sua última entrevista. “Bigode”, como é chamado por seus amigos, foi o criador da revolucionária Somaterapia, que, por ser vanguarda demais para nossa conservadora sociedade, foi vítima do preconceito.
A proposta da Somaterapia era muito boa. Unia o que havia de melhor no Yoga (com acento agudo no ó, por favor), em Reich, em Pearls ( Gestalt-terapia), e em outras correntes, cujo objetivo, simplificando, é o de livrar ao máximo o homem de suas neuroses, resgatando sua espontaneidade.
Ao longo de um ano, em reuniões semanais e com dinâmica de grupo, a “Soma” ensinava ao indivíduo como libertar-se da heterorregulação (submissão do nosso comportamento à opinião dos outros), a viver o “aqui e agora” e, entre outras coisas, a relacionar-se socialmente de forma democrática. E, o mais importante, que “sem tesão (no sentido lato), não há solução”.
Além de psicológica, a proposta era também ideológica - como toda terapia. No caso da “Soma”, baseada principalmente nas experiências espanholas do início do século passado, divulgava o Anarquismo, e mostrava que tratado seriamente esse sistema político pode, realmente, promover a liberdade e a igualdade entre os homens.
A utopia de Roberto Freire era a de que depois de um ano cada um dos “somaterapeutizados” formasse um novo grupo e assim, sucessivamente, toda a sociedade seria terapeuta de si mesma. Muita gente, porém, preconceituosamente, denegriu a Somaterapia. No próprio meio dos terapeutas ela foi estigmatizada como algo “underground”, coisa de bicho-grilo.
O próprio Roberto, tempos mais tarde, contribuiu para a fixação dessa imagem distorcida, quando tomou uma atitude no minimo excludente: condicionou a participação nos grupos que supervisionava somente a quem praticasse capoeira ( e a de Angola, ainda por cima). Isso provocou uma cisão entre seus discípulos, entre os quais os dois melhores, Décio Melo e João da Matta. Pena, pois foi aí o início do fim da “Soma”.
Menos mal que o “Bigode” esteja deixando muitos livros, nos quais registrou o que é, ou o que deveria ser, a Somaterapia. Assim, quem sabe um dia, quando o preconceito for vencido, ela faça parte da grade dos cursos de Psicologia. Quem sabe um dia, professores e terapeutas do futuro, parafraseando Maiakovski, ressuscitem-na.
A ENTREVISTA
Quem quiser ler os principais trechos da entrevista de Roberto Freire, inclusive uma concisa e clara explicação sobre o Anarquismo e a Auto-Gestão, clique em
Caro José L. Teixeira,
Descobri seu site e matéria sobre o Bigode nos comentários da Cult.
Escrevo pra colocar algumas impressões…:
1 – Desconheço essa informação de que a utopia de Freire fosse que “cada um dos “somaterapeutizados” formasse um novo grupo e assim, sucessivamente, toda a sociedade seria terapeuta de si mesma”. Lógico que desejamos que cada participante de grupo de Soma/Somaiê seja um catalizador de mudanças sociais ao seu redor, assim, buscando a liberdade no cotidiano, cada ex-participante poderia contribuir para a construção de uma sociedade mais livre. MAS, nunca houve essa intenção de quem participe de um ano da terapia crie outros grupos de terapia. A formação da somaterapia, apesar de informal, segue um critério cuidadoso e dura alguns anos (mínimo de 4 anos); pois o somaterapeuta deve conhecer a fundo a técnica para evitar deslizes superficiais e abordagens sem uma profundidade técnica. Assim, acho que a SOMA sofre sim de uma dificuldade de ampliação, e formação de novos terapeutas, mas o tratamento dado no artigo é como se ela estivesse extinta….
2 – Imagino que vc tenha ligação com o Décio, pois, além de colocar a falsa afirmação de “ início do fim da “Soma”.” Imaginando que a Soma acabou, ainda tem preconceitos com a capoeira angola. O processo científico que levou a Somaterapia incorporar a capoeira angola, foi longo e doloroso, pois cheio de conflitos. Numa fase inicial, Freire optou em supervisionar somente os que faziam capoeira angola, depois disso se separou dos que não desejavam a sua prática, momento em que começa minha formação e incorporamos a capoeira angola a técnica da somaterapia.
Assim, quem vê de fora (ainda mais se influenciado pelos somaterapeutas que não faziam capoeira) pode falar que a capoeira angola exclui e diminui o leque dos participantes da técnica. Mas, se o foco fosse esse (ter mais clientes) o próprio anarquismo exclui muito mais. Se Freire fizesse uma técnica pra “ganhar dinheiro” em vez de “ampliar a liberdade”, com certeza teria muito mais gente interessada…
Brinco com o assunto, pois a capoeira angola entrou como um recurso técnico que potencializou muito os efeitos da somaterapia. Se quiser ver como Freire deixou registrado a sua versão da separação com o Décio e outros, leia o capítulo “uni-vos contra os ladrões da Soma” publicado em seu livro “Tesudos de todo o mundo, uni-vos”.
Bom, outro ponto que acho reacionário em seu artigo é a visão de que “, quando o preconceito for vencido, ela faça parte da grade dos cursos de Psicologia” sem perceber que a obra de Wilhelm Reich também não está presente na grade curricular de psicologia. Os cursos de psicologia refletem o capitalismo da sociedade, e, salvo exceções, atendem aos mecanismos autoritários de manutenção da sociedade como está.
UM DOS MOTIVOS QUE ME SEPAREI DO FREIRE E DOS OUTROS TERAPEUTAS, FOI ESSE DESEJO DE INCLUSÃO NO MEIO ACADÊMICO. Tenho muito material a esse respeito.
Assim, discordo dos rumos da SOMA levados pelos terapeutas atuais (já que Freire se aposentou da prática da Soma há muitos anos, deixando na nossa mão seu desenvolvimento…), mas não posso negar que eles existem e FAZEM SOMA hoje (o que me faz chamar de falsa sua visão do fim da soma). Assim, não se pode ressuscitar algo que não morreu…
Apesar de eu nomear minha técnica de SOMAIÊ, parte para homenagear a SOMA, do qual participei de 1990 a 2001, e parte para diferenciar da SOMA atual; considero minha técnica como SOMATERAPIA, mas uma evolução da técnica de Freire.
Tentei entrar nos comentários do artigo em seu site mas só deu erro…, assim escrevo pra você.
Abraço e aberto a qualquer discussão,
Rui Takeguma, produtor de Somaiê
(obs. Mais um exemplo da existência da SOMA/SOMAIÊ, é que ambas as técnicas atuais, derivadas da SOMA da época que Freire estava na ativa, participarão do 7º Congresso Internacional de Psicoterapia Corporal http://www.cipc2005.org em outubro em SP)
(obs 2. Meu site é http://www.soma.pagina.de, o dos outros terapeutas é http://www.somaterapia.com.br. Tenho dois grupos de somaterapia em atividade em SP, deles não sei….)
(obs 3. Meus motivos de me afastar do Bigode e da SOMA, são longos pra tratar aqui, mas além de mudanças teóricas (como a Biologia do conhecimento) fazemos mudanças práticas, como a criação do Te&So (http://somaie.vila.bol.com.br/teso.html) Pena que Freire veja isso como uma deformação da soma, segundo o texto da Cult…)
Prezado Rui,
obrigado pelo seu comentário. Caso não esteja enganado, acho que o conheci durante umpapo com o João da Matta, na Casa do Tesão (era assim que se chamava?), nas Perdizes. Respeito seus comentários, mas gostaria de esclarecer:
1) Ouvi do próprio Roberto Freire, ou li um texto dele, não lembro, que sua utopia era a de que cada somaterapeutizado passasse sua exsperiência para a frente.
2) Fiz Somaterapia com o Décio e a Regina e, naquele tempo ( 1990) bastavam dois anos para se tornar um terapeuta.
3) Não entendi por que vc me rotula de “reacionário” por dizer que há preconceito contra a Somaterapia, principalmente nos meios acadêmicos (não há?), e por defender que ela fosse ensinada nas faculdades de Psicologia.
4) A capoeira, no meu entender, é, sim excludente - e não creio que os participantes de um grupo de Soma possam ser chamados de “clientes”.
5) Fico feliz em saber que a Somaterapia não está em extinção. Gostaria, porém, que ela se tornasse uma terapia de massas, no futuro.
Creio que são apenas esses os reparos que gostaria de fazer às suas o bservações.
um abraço