Thursday, March 24, 2005

A última do bigode

O escritor e psicanalista Roberto Freire internou-se em uma casa de repouso. Ali, praticamente cego, deu para a revista Cult deste mês aquela que, segundo ele próprio, deve ser sua última entrevista. “Bigode”, como é chamado por seus amigos, foi o criador da revolucionária Somaterapia, que, por ser vanguarda demais para nossa conservadora sociedade, foi vítima do preconceito.

A proposta da Somaterapia era muito boa. Unia o que havia de melhor no Yoga (com acento agudo no ó, por favor), em Reich, em Pearls ( Gestalt-terapia), e em outras correntes, cujo objetivo, simplificando, é o de livrar ao máximo o homem de suas neuroses, resgatando sua espontaneidade.

Ao longo de um ano, em reuniões semanais e com dinâmica de grupo, a “Soma” ensinava ao indivíduo como libertar-se da heterorregulação  (submissão do nosso comportamento à opinião dos outros), a viver o “aqui e agora” e, entre outras coisas, a relacionar-se socialmente de forma democrática. E, o mais importante, que “sem tesão (no sentido lato), não há solução”. 

Além de psicológica, a proposta era também ideológica - como toda terapia. No caso da “Soma”, baseada principalmente nas experiências espanholas do início do século passado, divulgava o Anarquismo, e mostrava que tratado seriamente esse sistema político pode, realmente, promover a liberdade e a igualdade entre os homens.

A utopia de Roberto Freire era a de que depois de um ano cada um dos “somaterapeutizados” formasse um novo grupo e assim, sucessivamente, toda a sociedade seria terapeuta de si mesma. Muita gente, porém, preconceituosamente, denegriu a Somaterapia. No próprio meio dos terapeutas ela foi estigmatizada como algo “underground”, coisa de bicho-grilo.

O próprio Roberto, tempos mais tarde, contribuiu para a fixação dessa imagem distorcida, quando tomou uma atitude no minimo excludente: condicionou a participação nos grupos que supervisionava somente a quem praticasse capoeira ( e a de Angola, ainda por cima). Isso provocou uma cisão entre seus discípulos, entre os quais os dois melhores, Décio Melo e João da Matta. Pena, pois foi aí o início do fim da “Soma”.

Menos mal que o “Bigode” esteja deixando muitos livros, nos quais registrou o que é, ou o que deveria ser, a Somaterapia. Assim, quem sabe um dia, quando o preconceito for vencido, ela faça parte da grade dos cursos de Psicologia. Quem sabe um dia, professores e terapeutas do futuro, parafraseando Maiakovski, ressuscitem-na.

A ENTREVISTA 

Quem quiser ler os principais trechos da entrevista de Roberto Freire, inclusive uma concisa e clara explicação sobre o Anarquismo e a Auto-Gestão, clique em

 

http://revistacult.uol.com.br/cult_92_mat1.htm

Posted by JLT at 20:47:35 | Permalink | Comments (2)

Wednesday, March 16, 2005

Sérios, malucos ou larápios

Com o escândalo do mensalão, tenho ouvido muitas pessoas reclamarem de sua desilusão com os políticos.  Basicamente, são aquelas que votaram no Lula e sempre acreditaram no PT. No meu caso, já me desiludi com os políticos faz tempo. Obviamente, eles padecem dos mesmos males da maioria dos mortais. A diferença é que decidem sobre nosso destino e administram o nosso dinheiro.

 

Reconheço que a política é essencial para a convivência em sociedade, mas não do jeito que tem sido praticada ao longo da história no mundo inteiro,  particularmente no Brasil. Isso me leva a questionar o que leva um sujeito a mover mundos e fundos - principalmente fundos - para se eleger?

 

Divido os políticos em três categorias. Uns, homens de bem, acredito que busquem um mandato porque têm vocação, espírito público e uma liderança legítima. Enquadram-se aí aqueles que lutam a vida inteira por uma sociedade mais justa e que, segundo Brecht, são essenciais. Seu maior desafio, dentro do atual sistema, é permanecerem íntegros e desmentir a máxima de que o poder corrompe. Se conseguirem passar por essa provação, merecem o paraíso.

 

O difícil é distinguir os sérios dos demais. Eu, por exemplo, cansei de ouvir amigos meus lamentarem a não reeleição do vereador Nabil Bouduki, homem honesto, arquiteto competente, o responsável pelo novo plano diretor da cidade. Pô, mas bem em frente ao meu prédio, onde ele encheu de cartazes na campanha eleitoral, graças ao seu novo zoneamento está sendo construído um espigão que vai acabar com o sossego da vizinhança e descaracterizar o quarteirão.

 

Mas voltemos à vaca-fria. Numa segunda categoria, encaixam-se aqueles politicos que, com o perdão do trocadilho, são mesmo de segunda categoria. Ou seja, os vigaristas que usam a política com o único objetivo de enriquecer - ilicitamente, é claro. Nesse caso trata-se de um desvio de caráter cuja única solução é a cadeia. Não há muito mais a comentar sobre eles.

 

É um terceiro tipo que me chama mais a atenção. São os que buscam um mandato por pura vaidade ou pelo desejo de poder pelo poder. São homens e mulheres honestos, mas que, em alguns casos ( acreditem) chegam a torrar fortunas pessoais para eleger-se. Não se trata de desvio de caráter, mas sim de personalidade. Uma boa terapia ( camisa-de- força em alguns casos) talvez resolvesse o problema. Afinal, por que um sujeito deseja mandar no seu semelhante? Por que precisa ser admirado, reverenciado pelos outros cidadãos? Só Freud explica.

 

Uma vez, um deputado que já havia chegado à Presidência da Assembléia Legislativa de São Paulo me confidenciou que o exercício do poder era tão prazeiroso quanto o ato sexual. O próprio Ulisses Guimarães, com sua fina ironia, dizia que o poder era afrodisíaco. Deve ser por isso que os italianos mais antigos, quando trocam os governantes, costumam dizer: “Cambia il cazzo; il culo rimane sempre il nostro”.

Posted by JLT at 20:51:14 | Permalink | No Comments »